Cineasta independente, marcado por filmes sobre marginais, drogados e homossexuais, mas também diretor com trânsito livre pelos grandes estúdios, o americano Gus Van Sant, 50 anos, é ainda pintor, escritor e roqueiro. Um polivalente inclassificável que sempre perturbou a crítica, seja pela proximidade com o universo outsider de William Burroughs ou pela adesão à normas hollywoodianas de fazer cinema. Depois de revelado com ''Drugstore Cowboy'' (1989), a atenção sobre ele se redobra a partir de ''Garotos de Programa'' (91), um road-movie absolutamente livre, às vezes meditativo, às vezes frenético, conduzido por duas jovens revelações, Keanu Reeves e River Phoenix. O filme seduz os cinéfilos e a contracultura em geral, mas o próximo passo é um fracasso de publico e crítica: ''Até as Vaqueiras ficam Tristes''. É aqui que Van Sant dá sua guinada, tornando-se realizador de estúdio.
Seu filme da virada é ''Um Sonho Sem Limites'' (1995), roteiro amparado pelo talento emergente de Nicole Kidman. A comédia satírica e cruel sobre a mídia e a classe média é bem recebida, mas o encontro com a popularidade e a fama acontece mesmo é com ''Gênio Indomável'' (1997), com nove indicações ao Oscar, inclusive para melhor diretor. Há o apenas regular ''Encontrando Forrester'' (2000) e a refilmagem-reciclagem plano a plano de ''Psicose'' (1998), um desastre por unanimidade. ''Gerry'', aclamado no Festival de Veneza de 2002, recoloca Van Sant de costas para o grande público e nas trilhas quase da abstração experimental.
Reforçando o austero minimalismo desta retomada e as técnicas de filmagem quase de guerrilha utilizadas em ''Gerry'', Gus Van Sant levou a Cannes um ''Elefante'' que incomodou muita gente, principalmente aqueles classificados como francos favoritos. O filme, feito para a rede HBO e produzido entre outros por Diane Keaton, examina um dia comum na vida de uma escola americana. Livremente inspirado no célebre massacre na high school de Columbine em 1999, quando dois adolescentes fuzilaram doze colegas e um professor, feriram dezenas e depois se mataram, ''Elephant'' mostra como, embora sem entregar o porquê.
Em apenas hora e vinte, quase sem diálogos e apoiado por elenco não profissional e imagens áridas e precisas de Harris Savide a quem o diretor rendeu crédito ao receber a Palma de Ouro , Van Sant segue alternadamente os estudantes em seus diversos afazeres banais e a preparação do massacre, mas não explica quem são esses assassinos, evita qualquer resposta psicológica ou sociológica. E por isso o filme é mais duro, mais subversivo, mais intrigante e menos óbvio, e por isso mesmo não agradou a crítica americana que o viu pela primeira vez em Cannes e o rotulou de ''amoral''.
Muito mais pela curiosidade, aguçada por um filme de baixo orçamento e com estranho sentido de deslocamento no contexto da mostra deste ano, do que pela suspeita de resto não compartilhada por todos de um grande prêmio a caminho, na antevéspera do encerramento da jornada de Cannes o repórter da Folha se credenciou para uma conversa com Gus Van Sant, afinal concedida no Hotel Martinez. A seguir os principais trechos da entrevista.
É sua primeira vez competindo em Cannes. Como você recebeu a notícia?
Eu sempre quis vir a Cannes, isto é, quis muito trazer ''Drugstore Cowboy'' e ''Garotos de Programa'' , e consegui, colocando ainda ''Um Sonho Sem Limites'', porém todos fora de competição. Todas as vezes que pude vir acabei vindo. Mas agora é ainda melhor estar aqui, concorrendo.
Este parece não ser um ano para muitos filmes americanos em Cannes, muita coisa não ficou pronta, é isso mesmo?
Li uma matéria sobre isso, de que uma série de filmes não tinha sido concluída. Mas é uma interessante mistura de filmes: o de Clint Eastwood, o meu e o de Vincent Gallo. Repito: é um grupo interessante. E houve ainda ''Matrix Reloaded'', é bom não esquecer.
Que tipo de apelo você acha que ''Elefante'' teve para ser selecionado?
Nós não sabíamos o que esperar, tínhamos recém-concluído o filme, e não sabíamos mesmo o que estavam querendo. Não sabia se alguém ia gostar dele. Tentamos inscrever ''Gerry'' ano passado, e eles disseram que não estavam pegando nada do Sundance (NR.: o festival de filmes independentes que se realiza anualmente nos Estados Unidos), e eu fiquei sem saber se aquilo foi ou não uma desculpa.
''Elefante'' parece ser muito americano quanto ao tema. O que você espera como resposta do público internacional?
É um filme muito americano porque lida com a violência na escola. E acho que por isso vai falar muito diretamente a uma platéia internacional. High schools espalhadas pelo mundo têm muito em comum com a do meu filme. Assim você pode relacionar as coisas de uma maneira abstratas. De uma certa maneira é muito como se fosse um poema sobre as vidas desses garotos.
E esses garotos são interpretados somente por atores não-profissionais?
São todos, sem exceção, não-profissionais, e alunos de verdade de uma escola de Portland, Oregon. Três deles estão aqui em Cannes comigo. Como você viu no filme, há muito mais garotos e garotas, mas não pudemos trazer todos os 15 que têm papéis de destaque.
Você voltou a fazer filmes menores, independentes, fora do esquema dos grandes estúdios, como no início de sua carreira. Por quê?
Eu quis apenas trabalhar em escala menor e de maneira mais pessoal. Se o projeto é menor, me sinto menos culpado gastando um monte de dinheiro em alguma coisa que pode não funcionar. Também gosto de trabalhar com mais liberdade de criação, e isso significa que você vai trabalhar em menor escala. ''Gerry'' e ''Elefante'' tiveram ambos tempo de filmagem muito reduzido, e eu gosto disso.
''Elefante'' é o tipo de filme que poderia ter sido realizado com equipamento digital. Você concorda?
Ainda não trabalhei com equipamento digital. Mas estou sempre interessando em fazer alguma coisa muito, muito barata. Penso que muito breve o digital será muito como o celulóide. De alguma forma isto já está acontecendo. Mas eu não cheguei lá ainda. Continuo me divertindo muito filmando em 35mm, por isso por enquanto não penso em digital.

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