Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
Especial para a Folha2
O poeta, escritor, dramaturgo e escultor Gunter Grass é o mais novo escolhido da Academia Sueca para o Prêmio Nobel de Literatura. Grass, de 72 anos, afirmou apenas estar feliz com a premiação. Ele vai receber o equivalente a US$ 960 mil. O Prêmio será concedido no dia 10 de dezembro.
A Academia Sueca, responsável pela nomeação dos premiados, quebrou o protocolo ao anunciar antecipadamente o vencedor. O anúncio geralmente acontece no meio de outubro. Fundada em 1786, este ano a Academia contou com quatro votos a menos para a escolha do premiado, já que há uma cadeira vaga e três dos membros recusaram-se a votar.
Gunter Grass nasceu em Gdansk, na Polônia, em 1927, mas foi criado em Danzig, na Alemanha, cenário de muitas de suas obras. Em 1930 Gunter Grass entrou para a Juventude Hitlerista, organização pára-militar que visava a formação da juventude alemã dentro dos moldes do nazi-fascismo. Ao 16 anos Gunter Grass foi integrado ao exército alemão e em 1945 participou das últimas batalhas da Segunda Guerra Mundial. No mesmo ano, foi preso na Tchecoslováquia e só libertado no ano seguinte. Nos anos pós-guerra Grass trabalhou em fazendas para sobreviver.
Em 1948 Gunter Grass entrou para a Academia de Arte de Dusseldorf, como aluno de pintura e escultura. Mais tarde entrou para a Academia de Belas Artes de Berlim, onde se graduou em 1955. A carreira de escultor parecia promissora para o alemão, que fez diversas exposições pela Europa durante a década de 50.
Foi nesta mesma década, em Paris, que Grass se atreveu a escrever. Começou como poeta e dramaturgo, chegando até a ter Bertold Brecht em uma de suas peças, mas sua carreira como escritor deslanchou mesmo com o seu primeiro romance, ‘‘O Tambor’’, publicado em 1959.
‘‘O Tambor’’ tornou-se rapidamente um best seller, causando furor na Alemanha do pós-guerra. O personagem central é Oscar Matzerath, um homem que se recusa a crescer em protesto contra as crueldades que vivencia e cujo único contato com o mundo é seu tambor de brinquedo. O livro faz parte de uma trilogia que inclui ainda os livros ‘‘Gato e Rato’’, de 1961, e ‘‘Anos de Cão’’, de 1963.
Depois de estabelecer-se como escritor, Gunter Grass começou uma intensa militância política, chegando a trabalhar como ghost-writer para o líder do Partido Social-Democrata Willy Brandt, que acabou sendo eleito chanceler em 1969.
Durante os anos 70 e 80, Grass praticamente legou a segundo plano sua condição de escritor, atendo-se somente à militância política através de seus ensaios, que abordam os mais diversos temas, como feminismo, culinária e ecologia.
De 1986 a 1987 Gunter Grass viveu na Índia, retratada em seu livro ‘‘Mostre sua Língua’’, de 1988. Atualmente Grass tem-se dedicado à produção de ensaios a respeito da Reunificação Alemã e do recente problema dos imigrantes turcos vítimas da hostilidade dos neonazistas. Seu livro mais recente é ‘‘Nosso Século’’ (Mein Jahrhundert), ainda sem data para sair no Brasil, no qual ele faz uma análise do século XX.
A nomeação de Gunter Grass para o Prêmio Nobel de Literatura deste ano foi, na verdade, anunciado há quase um ano pelo escritor português José Saramago, num debate realizado pelos dois em Lisboa. Naquela ocasião, Saramago, ainda embasbacado com o Prêmio da Academia Sueca, disse que indicaria pessoalmente Gunter Grass para o Nobel. O previsível aconteceu.
Gunter Grass perseguia a laureação já há uma década. Ano passado, quando perdeu para Saramago, foi diplomático ao afirmar que o Nobel estava em boas mãos, apesar de Saramago ser um comunista de carteirinha, doutrina à qual Grass sempre se opôs.
Como não poderia deixar de ser, a nomeação de Gunter Grass é muito mais uma opção política do que literária. O escritor alemão escreveu uma das obras-primas essenciais deste século, ‘‘O Tambor’’, e desde então tem relegado sua condição de escritor maior da literatura alemã a segundo plano para participar de atividades políticas.
O Nobel chega fora de época para um escritor que soube como ninguém retratar o espírito do povo alemão após a Segunda Grande Guerra, mas que nos últimos anos perdeu-se nos salões literários defendendo posicionamentos alheios às belas letras.O escritor alemão perseguia o Nobel há uma década, muitos consideram a premiação mais uma opção política do que literária
France PresseGunter Grass: autor de ‘‘O Tambor’’ tem um novo livro, ‘‘Nosso Século’’, que ainda não foi lançado no Brasil

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