Guitarras para toda a família
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segunda-feira, 02 de junho de 2008
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
Com 40 anos de estrada, uma banda já pode ser considerada uma instituição, principalmente quando mantém uma sonoridade intacta durante esta trajetória, sem se deixar influenciar pelas inúmeras tendências de época que passam por seu caminho. Isso vale também para um grupo de rock, estilo geralmente lembrado como coisa de jovem.
O Nazareth é um destes exemplos de bandas de rock quarentonas, surgidas nos anos de 1970 e que até hoje se mantém na ativa. Quando surgiu, seu público era de adolescentes. Mas e atualmente? Será que aqueles jovens de outrora, que agora são pais de família na casa dos 50 e 60 anos, ainda vão aos shows? A julgar pelo que foi visto na última quinta-feira em Curitiba, a resposta é sim.
No interior da Hellooch, mesma casa noturna onde a banda captou imagens para seu DVD ''Live in Brazil'' na turnê do ano passado, aglomeravam-se não somente os ''tiozinhos'' do rock, mas, principalmente, uma grande quantidade de roqueiros mais jovens, na casa dos 20 e 30 anos - a maioria frequentadora de bares que funcionam como CTRs (Centros das Tradições Roqueiras), dedicados ao rock clássico.
Nos camarotes, muitas famílias, algumas ''uniformizadas'' com camisetas da banda. Bastava uma boa observada para concluir que um show do Nazareth reúne pessoas dos 8 aos 80 anos (ou até mais que isso). No mesmo camarote estavam possivelmente a pessoa mais jovem e a mais idosa da noite: Kelly Andressa Nascimento, 8 anos, e Aracy de Amorim Albuquerque, 91 anos.
A pequena Kelly se iniciou no rock jogando videogame. ''Aprendi a gostar de rock quando tinha 7 anos, jogando Guitar Hero com meu irmão'', comenta. Carlos Alberto Nascimento, 13 anos, está há um ano se dedicando, junto da irmã, ao game de PlayStation 2, que simula os acordes de guitarras de vários clássicos. ''No rock antigo você sente o brilho da guitarra'', opina.
O pai dos meninos, Carlos Nascimento, 50 anos, teve uma espécie de caminho contrário dos demais pais roqueiros. ''Eu sempre gostei de rock, mas o abandonei nos últimos 20 anos. Eu fui pro country e sertanejo, inclusive faço um programa só deste estilo numa rádio local. Daí, certo dia, cheguei em casa e encontrei meus filhos ouvindo rock. Fiquei surpreso, não sabia que eles gostavam disso. A partir daí eu voltei pro rock'', orgulha-se.
Com 91 anos, Aracy de Amorim Albuquerque estava marcando presença, firme e forte no show do ''Naza'', como protagonista de uma lição de vida rock'n'roll. ''O marido dela faleceu em 2004. Ela está na primeira fase do Alzheimer, mas lembra perfeitamente de quando dançava com o marido ao som de ''Love Hurts''. Ela gosta muito das músicas românticas do Nazareth'', revela a filha Maria de Fátima Albuquerque, 51 anos.
Na pista, as amigas de infância Viviane Barrozo e Susana Ramscheid, ambas com 23 anos, aproveitaram a oportunidade para ver ao vivo um grande nome do rock. ''Não dá pra saber se eles ainda voltam pro Brasil, afinal a banda já existe há tanto tempo... Tem que aproveitar e ir no show enquanto pode'', conclui Viviane.
Apreciadoras dos mais diversos tipos de rock, do melódico ao extremo, elas cresceram juntas descobrindo o estilo musical e concordam que nele não há limite de idade. ''Não se pode dizer que tal banda é pra velhos e outra é pra jovens, pois não se deve ter preconceitos, ainda mais no rock. É muito bom ver pais e filhos felizes no mesmo show'', acrescenta Susana.
Antes mesmo de Dan McCafferty (vocal), Pete Angnew (baixo), Jimmy Murison (guitarra) e Lee Agnew (bateria) pisarem no palco, o mar de gente diante do palco já estava em ponto de bala e ia ao delírio mesmo com o som mecânico. Clássicos como ''TNT'' do AC/DC, ''Satisfaction'' dos Stones e ''Lick It Up'' do Kiss eram cantados em uníssono. As roupas pretas imperavam. Algumas meninas usavam arcos com chifrinhos luminosos, fazendo o tipo ''diabinha''. O mais espantoso era encontrar por lá sujeitos que pagaram R$ 80 para ver o show e em vez disso bebiam todas, faziam baderna e azucrinavam quem estivesse ao redor. Cada um que aparece...
Pouco depois das 23 horas, o Nazareth dá o pontapé inicial com ''Biggar's Day'', clássico setentista. É claro que o público ficou em alarde, e isso aconteceria com qualquer música que abrisse o show.
''Love Hurts'' veio no final, seguido de um bis de duas músicas. Apesar de ser mal visto por fãs mais jovens ou radicais, o megahit foi muito ovacionado e provavelmente se mostrou como música que tem o maior poder de integração entre as diversas gerações presentes no local. Afinal de contas, era um show família. Nem precisava olhar para o público para concluir isto, e sim para o palco, visto que o baixista Pete Angnew é pai do baterista Lee Agnew.


