O black metal já foi definido como o fim da linha, o apocalipse das guitarras brutais, o extremo da brutalitade sonora. Hoje, bandas que ajudaram a popularizar o gênero soam até melodiosas com seus vocais femininos, passagens orquestrais e teclados épicos de matriz gótica.
Cradle of Filth é uma das expoentes do estilo. Surgiu há 12 anos na Inglaterra conquistando paulatinamente um vasto público ao redor do mundo. Dani Filth é o fundador do grupo, cuja formação já bateu recordes em matéria de troca de integrantes, jamais repetindo os mesmos músicos nas gravações de um disco para o outro.
No ano passado, para celebrar uma década de existência, a banda lançou um luxuoso CD duplo reunindo faixas de quatro álbuns, remixes, covers e um encarte-pôster. ''Lovecraft & Witch Hearts'' (Jive/Globo) chega agora ao mercado brasileiro combinando peso, melodia e letras sobre vampirismo e lendas da era vitoriana.
A coletânea pinça o repertório dos álbuns ''Dusk and Her Embrace'', ''Cruelty and The Beast'', ''From The Cradle to Enslave'' e ''Midian'' deixando de fora registros da fase inicial da banda como o disco de estréia ''The Principle Of Evil Made Flesh'' (1994) e o mini-álbum ''Vempire or Dark Faerytales in Phallustein'' (1996).
Entre os destaques da compilação figuram ''Malice Through The Looking Glass'', ''Cruelty Brought Thee Orchids'' e ''The Twisted Nails Of Faith''. No bloco de remixes, a banda revisita ''Thirteen Autumns And A Widow'', ''For Those Who Died'', ''Of Dark Blood And Fucking'' e ''Amor e Morte'' (título em referência a Portugal, onde eles contam com uma numerosa legião de fãs).
As quatro faixas saíram anteriormente como bônus tracks em formatos digipack de alguns álbuns. No bloco de covers, o sexteto inglês exclui a comentada versão para ''No Time No Cry'', dos Sisters of Mercy (incluída na também coletânea ''Bitter Suites To Succubi'', de 2002), mas brinda o ouvinte com regravações empolgantes de ''Hallowed be Thy Name'' do Iron Maiden, ''Hell Awaits'' do Slayer, ''Sodomy And Lust'' do Sodom.
O contraste entre os urros de Dani e os vocais femininos marca boa parte das faixas, assim como o tremor da bateria e os teclados climáticos. Um pôster acompanha os dois CDs trazendo as letras das músicas no verso. A ilustração segue a temática ocultista mostrando uma mulher nua num ritual macabro. Dani assina todas as composições.
Considerado um mestre da poesia negra, o vocalista é leitor de Baudelaire, Shelley, Byron, Marquês de Sade e Nietzsche. Este último o inspirou a batizar o álbum ''Cruelty and the Beast'' com base em sua frase ''Não existe beleza sem crueldade''. Nas letras, Dani fala de vampirismo e da lenda de Elizabeth Bathory, uma condessa européia do século 16 que torturava e matava seus criados para beber sangue acreditando que assim conservaria a juventude eterna.
Ao explorar o imaginário místico e o terror medieval, a banda provocou controvérsias durante algumas de suas turnês. Nos Estados Unidos, sofreu protestos de grupos religiosos. Na Itália, Dani Filth foi preso por andar com uma camiseta estampando a frase ''I love Satan''. Na Inglaterra, dois jovens também acabaram na cadeia por vestirem uma das T-shirts de merchandising da banda, aquela conhecida como ''vestal masturbation'', em que aparece uma freira se masturbando.
Cadle of Filth, porém, conquistou platéias fora dos redutos black metal menos por causa dos bafafás do que pela inovação que imprimiu ao gênero. Talvez, a banda seja a grande responsável pela difusão em grande escala do estilo ao embutir-lhe elementos de death, gótico e rock progressivo. A coletânea ''Lovecraft & Witch Hearts'' reforça o apelo com a diversidade de atmosferas registrada ao longo de 140 minutos.

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