São Paulo, 09 (AE) - Guinga recebe, sábado e domingo, no Teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, dois dos convidados especiais de seu recente disco, "Suíte Leopoldina": os cantores e compositores Lenine e Ed Motta. É o encontro de três vertentes da música brasileira: o chorão carioca, titular do espetáculo, Guinga; a voz negra suburbana e carioca, parente tanto das serestas quanto, por outras afinidades, da música negra de inspiração religiosa norte-americana - representada por Ed Motta; e o canto nordestino metamorfoseado pelas modernas tecnologias de Lenine.
É um encontro curioso, que só o espírito aglutinador de Guinga ousaria propor. No disco "Suíte Leopoldina", ouve-se que eles são almas musicais gêmeas. Ed Motta canta, ou melhor, cantarola, sem palavras, o fox-trot "Par Constante", escrito por Guinga para sua mulher de toda a vida, Fátima. Lenine encarrega-se do "Mingus Samba", sambão com letra aliterada de Aldir Blanc que põe o contrabaixista negro Charles Mingus no domingo de carnaval do Rio.
Durante muitos anos, antes de ser o nome popular que é hoje, Lenine foi o principal compositor dos sambas-enredo de blocos carnavalescos da zona sul carioca. Compunha e interpretava - Guinga, que hoje mora na zona sul, sempre achou interessante a maneira nordestina, de vogais abertas, de Lenine cantar samba-enredo. Quando compôs o seu samba-enredo - é o primeiro, estilizado, mas samba-enredo -, não pensou duas vezes antes de convidá-lo para ser o intérprete.
Ed Motta apaixonou-se pela música de Guinga quando tomou contato com ela, há pouco mais de três anos. Descobriu o endereço do compositor e bateu à sua porta, para pedir autógrafo. Ficaram amigos. A partir de Guinga, Ed Motta aprofundou o conhecimento do choro, das canções valsadas e choradas suburbanas. Músico sofisticado, Ed Motta encampou novo universo - chegou mesmo a compor, e Aldir Blanc fez a letra, uma lindíssima valsa de subúrbio, "Crescente Fértil". Está gravada por Ed no disco Aldir Blanc - 50 Anos.
Mundos que se descobrem. Há outros convidados em "Suíte Leopoldina", certamente o disco mais bonito do ano: o gaitista belga Toots Thielemans, Ivan Lins, Alceu Valença e, num dueto inédito, Nei Lopes e Chico Buarque, interpretando "Parsifal", parceria inaugural do sambista Nei com o chorão Guinga. Infelizmente, não estarão todos os convidados especiais em cena, nos shows de amanhã e depois. Não será ainda desta vez - mas acontecerá, um dia.
Em compensação, acompanhando o compositor e violonista estará o melhor clarinetista brasileiro de todos os tempos, Paulo Sérgio Santos, primeira clarineta da Sinfônica Brasileira, clarinetista titular do Quinteto Villa-Lobos e do conjunto instrumental de choro O Trio. O outro músico em cena é o pianista, arranjador e (excelente, embora poucos saibam disso) compositor Gilson Peranzzetta - autor dos arranjos orquestrais de Suíte Carioca. Tom Jobim considerava Peranzzetta um dos grandes nomes do piano popular.
"Suíte Leopoldina" é o quarto e mais elaborado disco de Guinga. O título faz referência ao subúrbio do Rio cortado pelos trens da estrada de ferro Leopoldina - o compositor não nasceu lá, mas tem fortes ligações sentimentais com a região. Quis homenageá-la: sua atmosfera calma, seus tipos, o ruído do trem cortando as ruas.
Às peças originais da "Suíte", compostas para violão-solo, foram sendo acrescentadas outras, da produção recente do compositor, dedicadas às filhas, à mulher, ao pai. São preciosos retratos musicais, obras da inspiração que a cada dia confirma o autor como o compositor mais importante das últimas décadas.
Embora distante do grande público de sua terra - não porque queira nem porque sua música sofisticada não possa ser do agrado desse público, mas porque, vítima da política imediatista da maioria absoluta das emissoras de rádio e televisão -, Guinga já angariou prestígio internacional e o respeito do meio musical. Basta lembrar que, no Prêmio Visa de MPB, na primeira edição, instrumental, praticamente todos os concorrentes tocavam alguma peça dele. Uma espécie de prova dos noves, de bom gosto e excelência interpretativa.
Serviço - Guinga, Ed Motta e Lenine. Sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 7,50 e R$ 15,00. Teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Rua Pelotas, 141, tel. (11) 5080-3147.

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