São Paulo, 06 (AE) - O compositor e violonista Guinga apresenta amanhã, no Sesc Paulista, e depois, no Sesc Santo Amaro, ambos em São Paulo, o repertório de seu novo disco, "Suíte Leopoldina". É o seu quarto solo, e ele o considera o melhor. Tem participação de Chico Buarque (eles são parceiros em "Você, Você", música do repertório do CD "As Cidades", de Chico), Nei Lopes, Lenine, Alceu Valença, Ivan Lins, Ed Motta e do gaitista belga Toots Thielemans, arranjos de Leandro Braga, Gilson Peranzzetta, Lula Galvão, Rodrigo Lessa. São nomes de muitos estilos, reverenciando a grande música de Guinga.
O disco é um lançamento da Velas, que pertence a Ivan Lins e Vítor Martins. Há dez anos, indignados com a indiferença das grandes gravadoras ao talento de Guinga, Ivan e Vítor criaram a Velas - especialmente para gravar o primeiro disco do compositor, "Simples e Absurdo", que tinha já participações de Chico Buarque, Leila Pinheiro, Boca Livre, Zé Renato e outros nomes de peso. "Simples e Absurdo" era todo de parcerias de Guinga e Aldir Blanc.
Guinga não é um novato. Começou na época dos festivais, no fim dos anos 60, e foi bem gravado ao longo da década seguinte. Elis Regina gravou dele e de Paulo César Pinheiro o "Bolero de Satã", em formidável dueto com Cauby Peixoto. Mas os anos 80 vieram e a música brasileira saiu das rádios e foi saindo da TV. Guinga é dentista e dedicou-se ao ofício. Mas não abandonou a composição.
No fim dos anos 80, aquela que pode ser considerada a fatia mais inteligente da música brasileira resolveu unir forças para tirar Guinga do ostracismo musical. Aldir Blanc promoveu verdadeira cruzada - realizava reuniões para mostrar a música do então novo parceiro. Outros se juntaram ao esforço - o mencionado Ivan Lins, a cantora Leila Pinheiro, o saxofonista e produtor Zé Nogueira.
A expressão "simples e absurdo", cunhada por Aldir para dar nome a uma das parcerias dele e de Guinga, é intencionalmente cheia de sentidos. É simples que as gravadoras não queiram gravar Guinga, as rádios não queiram tocá-lo. Tocá-lo é permitir que o público estabeleça um parâmetro de comparação e perceba quanto são ruins os outros discos que elas lançam. É simples o motivo por que as rádios não tocam o disco de Guinga e as emissoras de televisão não o convidem para seus programas. Ele teria de pagar para isso. E não vai fazê-lo - não apenas porque ele e a gravadora não tenham dinheiro. Mas por princípio.
Tente o leitor lembrar-se da última vez em que ouviu Chico Buarque no rádio e perceberá que foi há muitos, muitos anos (há exceções; aqui, fala-se da regra). Ou da última vez em que ouviu Tom Jobim. João Gilberto. Dorival Caymmi. Gilberto Gil (Caetano Veloso também, normalmente, não toca; está tocando, agora, porque tem música na trilha de novela). Ou seja, não é uma questão pessoal com Guinga, uma questão estética com a música de Guinga. É questão de qualidade. O que é bom não toca. Para não criar a temível hipótese da comparação.
Ouvir os discos de Guinga é indispensável. Assistir a um show dele é uma experiência estética ímpar. Viaje com ele pelos trilhos da Leopoldina, em direção ao subúrbio carioca berço do choro, das valsas de esquina, das canções apaixonadas.

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