Quando Carlos Althier de Souza Lima, 46, o Guinga, pensou em gravar ‘‘Cheio de Dedos’’ a sua idéia era a de fazer uma crônica musical do Rio de Janeiro. O cirurgião-dentista acabou então compondo em cima de velhas fórmulas, tendo o choro como referencial constante.
Homenageou ícones clássicos da cultura popular carioca e incluiu um pouco da modernidade no gênero, tocando ao lado do Nó em Pingo D’Água - grupo da nova guarda de chorões cariocas que mistura jazz e pop ao repertório. ‘‘Cheio de Dedos’’ homenageia Jacob do Bandolim, Raphael Rabello, Villa-Lobos e o eterno companheiro de parcerias, Aldir Blanc. ‘‘Fiz músicas sem letra para que ele letrasse, como está sem tempo, gravei-as assim mesmo e deixo-lhe o desafio’’, disse o compositor.
Ousadia Das 15 faixas que compõem o disco, só duas são cantadas. ‘‘Ária de Opereta’’, interpretada por Ed Motta, e ‘‘Impressionados’’, um choro lamurioso que evoca as figuras de Lautrec, Gauguin, Van Gogh, Cézanne, e conta com a participação especial do cantor Chico Buarque. ‘‘Acho que ousei bastante neste álbum, principalmente nos arranjos, mas o fiz com fundamento e autoridade de quem já passeou muito pelos antigos modelos.’’
Mas a inspiração do compositor vai além de meros referenciais. A vigília em que passa seu cotidiano é o principal motor de seu trabalho. ‘‘Tenho medo da morte e não durmo mais do que quatro horas de uma vez. Não quero perder nada que acontece à minha volta, vivo compondo.’’ Perfeccionista, não gosta de retoques em suas músicas. ‘‘A possibilidade de queimar a composição é de 99%’’
‘‘Cheio de Dedos’’, segundo ele, completa um caminho que começou a percorrer em ‘‘Catavento e Girassol’’, disco com composições suas interpretadas por Leila Pinheiro. ‘‘Pretendi me afirmar como compositor de música popular brasileira, simplesmente isso, e acho que consegui’’.

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