Depois de enfileirar uma série de papéis clássicos no teatro e de personagens marcantes no cinema e na televisão, o ator Raul Cortez decidiu dar uma guinada na carreira. ‘‘Eu estava disposto a investir em novos talentos, ao mesmo tempo que buscava um papel instigante para mim’’, disse ele, que descobriu o que procurava ao assistir, no Centro Cultural São Paulo, a várias peças escritas pelo paranaense Mário Bortolotto, autor de uma sólida obra em que trata de violência, solidão e morte.
  Aos 71 anos, 47 deles dedicados a uma sólida carreira no teatro e na televisão, Cortez sentiu-se revigorado. ‘‘Percebi, no texto do Bortolotto, o espírito juvenil que eu vinha buscando’’, conta ele, que logo entrou em contato com o autor. Interessado na parceria, Bortolotto abriu-lhe suas mais de 40 peças. Depois de uma leitura apurada, Cortez escolheu dois textos curtos: ‘‘Fica Frio - Uma Road Peça’’, de 1989, e ‘‘À Meia-Noite Um Solo de Sax na Minha Cabeça’’, de 1983. Formando um só programa, as duas estréiam no dia 28 de janeiro, no Teatro Faap.
  ‘‘Entendi a necessidade do Raul em montar meus textos, pois o que faço é uma negação do que vejo por aí. Quem gosta de Miguel Falabella jamais vai gostar do que faço’’, comenta Bortolotto, líder do grupo Cemitério de Automóveis. Seus personagens são, na maioria, marginais, inspirados na literatura beat, sua principal influência. A crueza dos diálogos e a ambientação das histórias em locais decadentes criam comparações com Plínio Marcos, o que não agrada a Bortolotto. ‘‘É muito simplista; claro que adoro os textos dele e tratamos dos mesmos assuntos, mas não gosto da comparação.’’
  Mas foi justamente a presença de Plínio nas peças de Bortolotto que cativou Raul Cortez. ‘‘São autores que, como Nelson Rodrigues, sempre acreditaram no ser humano’’, conta o ator. ‘‘E eles oferecem uma liberdade para um intérprete que poucos são capazes.’’
  Para manter o mesmo clima criado pelos textos, Cortez decidiu convidar dois diretores, um para cada peça. Assim, Sérgio Ferrara vai comandar ‘‘Fica Frio’’ enquanto Cibele Forjaz é responsável cênica por ‘‘À Meia-Noite Um Solo de Sax na Minha Cabeça’’. O ator pensou também em diferentes elencos - enquanto Chico Carvalho e Renato Chocair interpretam o primeiro texto, ele e Mário César Camargo atuam no segundo. ‘‘Mas ambos faremos pequenos papéis na outra peça.’’
  Fica Frio mostra a relação de dois irmãos: enquanto o mais velho abandona a casa para se aventurar no mundo, o caçula continua preso às amarras familiares. Até que o pai pede ao mais novo que busque o irmão. ‘‘O que torna o texto muito bonito é mostrar a incapacidade das pessoas em confessar que se amam’’, conta Ferrara. ‘‘Minha intenção é resgatar a poesia da intimidade que se encontra no texto do Bortolotto.’’
  Já em ‘‘À Meia-Noite Um Solo de Sax na Minha Cabeça’’, dois amigos voltam a se encontrar depois de muitos anos e relembram, sem censura, seus momentos mais marcantes. ‘‘Na peça, Mário e eu dizemos certas coisas que talvez vão chocar o público que está acostumado a nos ver em cena’’, comenta Cortez, sem esconder um sorriso de satisfação. ‘‘E eu gosto muito disso, pois espero atrair também espectadores mais jovens.’’
  Bortolotto confessa sua curiosidade por ver essa montagem do texto, que nunca foi encenado por atores mais velhos. ‘‘Acredito que o Raul e o Mário vão entender as sutilezas com que pretendi marcar a peça’’, justifica o dramaturgo, que não pretende acompanhar o processo de ensaios. ‘‘Mas pretendo convidá-lo para uma conversa, pois quero expor algumas das minhas idéias’’, diz a diretora Cibele Forjaz.
  Como cada peça terá cerca de 40 minutos de duração, os textos serão encenados sem intervalo. O cenário, portanto, será formado por um cubo vazado, a ser manipulado pelos atores e transformado nos elementos necessários desde o interior de um ônibus como de um hotel. ‘‘Nos textos de Bortolotto, não há choro nem autopiedade’’, comenta Ferrara. ‘‘E Raul percebeu sua principal qualidade, que é a contemporaneidade.’’

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