Guilherme Arantes acaba de lançar uma caixa com 21 discos: "No nosso caso, as mídias digitais são auxiliares na consolidação da memória"
Guilherme Arantes acaba de lançar uma caixa com 21 discos: "No nosso caso, as mídias digitais são auxiliares na consolidação da memória" | Foto: Paulo Avelino/Divulgação



Se existe um artista brasileiro que emplacou muitos temas em novelas é Guilherme Arantes. Dono de composições que fizeram sucessos nas tramas e viraram hits nas rádios como "Deixa Chover", "Planeta Água", "O Melhor Vai Começar", "Lance Legal", "Pedacinhos", "Loucas Horas", se consolidou como nome e referência para várias gerações. Além das músicas gravadas por ele com grande repercussão como "Cheia de Charme" e "Coisas do Brasil, teve outros sucessos em vozes de intérpretes famosas como Elis Regina, com "Aprendendo a Jogar" e especiais infantis ("Lindo Balão Azul" em "Pirlimpimpim" e "Brincar de Viver" com Bethânia em "Plunct Plact Zum).
E lá se vão 40 anos de carreira que estão sendo comemorados em grande estilo. Após o lançamento recente pela Sony de uma caixa com 23 CDs (sendo 21 com seus trabalhos de estúdio, um ao vivo e um CD coletânea dos seus singles lançados em compacto), Guilherme Arantes roda o país com o show especial. Londrina entrou na lista de cidades da turnê em 2017 e a apresentação será realizada no sábado (28), às 21 horas, no Teatro Marista, em que ele promete revisitar as quatro décadas de trabalho.
Nestes 40 anos de carreira, as gravadoras extraíram um número impressionante de coletâneas (40 no total) e Guilherme passou a ser revisitado por artistas das mais diversas correntes e em mais de uma centena de regravações. Mas seu trabalho não se resume aos sucessos passados. Prova disso foi o Prêmio Multishow 2013 de Melhor Disco com "Condição Humana", 23º. disco da carreira (o 22º de inéditas), no estúdio que implantou na Bahia com o selo Coaxo do Sapo. Este trabalho foi realizado depois de um hiato de seis anos sem lançar álbum inédito (o último "Lotus" foi lançado em 2007), quando Guilherme Arantes resolveu "verticalizar" a auto-produção.


Confira entrevista à FOLHA:

Nesses 40 anos de carreira, quais foram seus principais erros e acertos?
O maior acerto foi fazer o que se gosta. Sou um aficcionado pela música popular e o prazer esteve sempre na frente, isso é um lucro formidável. Muitas vezes os erros foram por excesso de ímpeto, uma falta de tranquilidade, um desespero de sobrevivência, ter provocado conflitos desnecessários com pessoas das gravadoras, por exemplo. Mas no cômputo geral, valeu tudo, porque a trajetória maior é a que fica: 40 anos.

As novelas foram, durante muitos anos, as principais formas de entretenimento dos brasileiros. Mas, hoje, isso mudou. Considerando que várias de suas músicas fizeram sucesso em tramas, como emplacar nesse novo cenário?
Não sei, estou tentando descobrir. Minha última produção, "Condição Humana", foi bem em termos de conteúdo, foi bem aceito, mas foi num circuito restrito sem grandes voos comerciais. Hoje é mais complexo se destacar, embora seja mais fácil levantar produção de disco.

Você é um compositor com uma pegada mais popular. Sofreu algum preconceito por parte dos chamados grandes nomes da MPB, apesar de ter sido gravado por Elis Regina e Maria Bethânia?
Sim,claro, ainda mais num tempo de muita polarização, nos anos 70. Eu era mais do auditório do que da cena contracultural ou de resistência ideológica, que era muito forte na época. Mas sempre fui bem valorizado, fosse por Caetano Veloso, Giberto Gil, Milton Nascimento e o pessoal de Minas, devido a canções que extrapolaram limitações como foi o caso de "Amanhã" da novela Dancin Days (essa foi muito especial na minha história). Mas me cobravam muito porque eu buscava o sucesso popular, então havia um preconceito com o lado "comercial", o que não era injusto, era razoável. Mas eu nunca liguei pra isso. O grande divisor de águas foi o sucesso na voz da Elis Regina. O da Bethânia, com "Brincar de Viver", foi um algo mais, embora não tão enfático quanto ao estouro de Aprendendo a Jogar.

Por que a ideia da caixa com os álbuns? Pensou em gravar um CD especial ou uma coletânea com os maiores sucessos?
Não acredito mais nesse negócio batido de "maiores sucessos". Preferi sair com o documentário em vídeo no canal do YouTube guilhermearantesoficial, abordando a carreira de forma mais aprofundada, abrangente, com muito mais opções do que o "mercado" insiste em oferecer.

Como foi o processo para reunir os 21 discos?
São todos os conteúdos autorais, só ficaram de fora dois "ao vivo", justamente revisitações de sucessos em shows, e um de versões, em que as canções são alheias. Esse foi o critério, e tudo foi reavaliado em estúdio, com remasterizações a partir dos melhores arquivos originais.

Em tempos de streaming de áudio, não considera caminhar contra a maré esse box?
Acho que não, é um presente duradouro, definitivo para os fãs Não é uma coisa volátil como tudo o mais hoje em dia. Temos o soundcloud para disponibilizar tudo também em streaming. Mas as pessoas queriam e adoraram (estão adorando), especialmente porque a parte gráfica, incluindo as "Histórias" em libreto manuscrito por mim, contando detalhes e curiosidades sobre cada disco, cada fase, é um trabalho de garimpagem da memória. E, depois, sou mesmo de uma era de produto físico. Nossa geração é assim, precisaria mesmo de uma caixa.

Aliás, como tem sido sua relação com a nova forma do público consumir música no mundo digital?
No nosso caso, as mídias digitais são auxiliares na consolidação da memória. Não é uma coisa de "consumo digital", ao menos na escala que ocorre para novas gerações. Não tenho grandes ambições nesse campo: o que vier, será bem-vindo.


Serviço:
Guilherme Arantes Especial 40 Anos
Quando: Sábado (28), às 21 horas
Onde: Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 240)
Quanto: R$ 93 (valor antecipado) - Óticas Diniz (Rua João Cândido, 100)

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