Guerrilheiros na corda bamba
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terça-feira, 29 de abril de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Arquivo FolhaCena de O que É Isso, Companheiro?, que em outubro deverá chegar ao mercado americanoO que é Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, com estréia nacional marcada para nove capitais excepcionalmente amanhã, por ser o Dia do Trabalhador, deverá entrar no mercado americano em outubro. A fita esteve no Festival de Berlim, com boa receptividade pela platéia. Fernando Gabeira, autor do livro que deu origem ao filme, foi ovacionado, disse a produtora Lucy Barreto, numa entrevista dada na segunda-feira em Curitiba, dentro do Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba.
Baseado num best-seller que vendeu 500 mil exemplares, O que é Isso, Companheiro? enfrentou sérias barreiras junto aos empresários no levantamento de recursos. Tivemos muita dificuldade por causa do grande preconceito em torno da temática. Falar da ditadura militar ainda é um assunto delicado.
Lucy Barreto disse que o departamento de marketing de um grande banco enviou-lhe uma corresponência explicando porque não apoiava o projeto: É um filme comunista. Pensamentos retrógrados como esse ainda permeiam boa parte do empresariado, mas a captação deverá estar sendo fechada neste final de mês.
Direita ou esquerda? Pela visão dos conservadores, seria a fita um libelo à esquerda brasileira? A esquerda reclama que o filme é de direita, os da direita dizem que ele é de esquerda. Não dá para entender, comentou Fernanda Torres. O trabalho nada tem de maniqueísta, observou Lucy. Ele pega por todos os lados. Mostra seres humanos vivendo situações limites, reforçou Lucy.
Luiz Fernando Guimarães, que vive o papel de um dos guerrilheiros, aceitou de imediato o convite para viver Marcão, um dos subversivos da trama, imaginando que atuaria num filme de aventuras. Durante as filmagens descobriu que a coisa não era bem assim. Ali estavam pessoas normais, comuns, envolvidas num mesmo processo histórico de resistência.
Quando o horror comia solto pelo País, ele era ainda garoto e suas lembranças desse tempo são ralas, apesar da polícia ter invadido sua casa. Vários conhecidos desapareceram.
Baseado em depoimentos Na tentativa de recuperar parte dessa história foi em busca de depoimento dos que viveram o sufoco. Porém, os depoimentos chegaram até ele sem peso nem rancor. Todas as pessoas me passaram o que aconteceu na época, de maneira leve. Nenhuma falou com dor, é como se fosse um bando de escoteiros.
Luiz Fernando acredita que por não ter personagens posando de heróis, é bem provável que a fita caia no gosto de público mais jovem. Ali está gente de carne e osso, verossíveis como o papel defendido por Caio Junqueira. O ator de 20 anos é Júlio, o elemento mais novo do grupo que sequestrou um embaixador americano, quebrando o orgulho dos generais.
Caio Junqueira, que como quase todo o elenco é um nome televisivo, vê seu personagem Júlio como o típico garoto do final dos anos 60. Os jovens entravam na luta sem saber o que estavam fazendo, acredita. Com um pé na realidade e a cabeça nas ilusões, caíam na clandestinidade movidos pelo ímpeto de união.
É legal mostrar esse lado para a minha geração. Hoje a gente não tem como defender os ideais, disse Caio. A tendência à irmandade que permeou toda essa fase diluiu-se com o tempo. Hoje os jovens estão mais independentes para fazer as coisas, comentou.


