‘‘Stefan Zweig - Uma Biografia’’, da francesa Dominique Bona, mostra que o escritor austríaco tinha um objetivo nada modesto: obter a paz entre as nações. Amigo de Rainer Maria Rilke, Sigmund Freud, James Joyce e de grandes pacifistas europeus do período entre as duas grandes guerras mundiais, Stefan Zweig era um humanista apaixonado mas vencido pelo nazismo. ‘‘Minha vida está destruída há anos, e me sinto feliz por poder sair de um mundo que se tornou cruel e louco’’, escreveu ele a um amigo brasileiro, indicando a decisão drástica que viria a concretizar em 23 de fevereiro de 1942. Junto com a segundo mulher, tomou uma dose mortal de veneno em Petrópolis, na Região Serrana no Rio.
Em ‘‘Stefan Zweig - Uma Biografia’’, Dominique pinta o escritor nascido em 1881, em Viena, como um eterno envergonhado pela infelicidade de milhares de pessoas que perderam tudo na guerra. A biografia destrincha com detalhes a via-crúcis de Zweig. Ele fez seus primeiros estudos na Áustria, França e Alemanha, antes de se fixar em Salzburgo, em 1913.
Mas a pacata cidade austríaca, assim como toda a Europa, foi chacoalhada pelos tiros certeiros de revólver desferidos pelo sérvio Gravilo Princip contra o arquiduque e herdeiro do trono austríaco Francisco Ferdinando e sua mulher, em 28 de junho de 1914, em Saravejo, na Bósnia. Com o início da Primeira Guerra Mundial, o já pacifista Zweig torna-se um ferrenho embaixador da paz.
Por alguns anos parece que sua tarefa foi absorvida pelo público. O acanhado escritor dos primeiros poemas publicados em 1901 nunca imaginaria que em 1922 se tornaria um verdadeiro autor de best sellers com a edição de ‘‘Amok’’. Com 70 mil exemplares vendidos em dois meses, tudo o que ele escreveu em seguida foi sucesso na Europa e em outros continentes. ‘‘Amok’’ serviu para chamar a atenção para seus livros antigos, como ‘‘Segredo Ardente’’, de 1911, e que em 1933 venderia só na Alemanha 140 mil unidades.
A partir de ‘‘Amok’’, todas as suas obras atingiram a tiragem mínima inicial de 25 mil exemplares. É assim com ‘‘Confusão de Sentimentos’’, ‘‘Momentos Decisivos da Humanidade’’ e ‘‘O Medo’’. Além de suas biografias sobre Maria Antonieta, Maria Stuart e Dostoievski também ganharem notoriedade, várias obras acabam sendo adaptadas para o cinema. ‘‘Amok’’ foi para a tela três vezes e ‘‘Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher’’ por seis vezes se tornou filme, com atores como Ingrid Bergman e Joan Fontaine. Com prestígio crescente, seus livros ganharam traduções em vários países, como Noruega, Espanha, Turquia, Portugal, Bulgária, Armênia, Finlândia e até na China e Rússia.
Mas com a figura de Hitler pairando como uma sombra crescente e maléfica sobre a Europa, Zweig começou a ser perseguido e censurado em diversos países. Por isso, Zweig se refugiou primeiro na Inglaterra, em 1934, e partiu em 1936 para o Brasil, onde deu diversas palestras no Rio. Deslumbrado pela beleza da paisagem carioca, Zweig foi recebido pelo presidente Getúlio Vargas, se hospedou no Copacabana Palace e prometeu voltar o quanto antes àquele país que o fez esquecer por instantes as agruras do terror instalado no solo europeu.
Deprimido pela triste coincidência de ser alemão e judeu, Zweig se exilou no Brasil em agosto de 1940. Só que desta vez, andando pelo Rio, percebeu abestalhado a miscigenação das raças que sempre evocou e já julgava impossível. Decidido, porém, a morar num lugar mais tranquilo, mudou-se para Petrópolis. Lá ele escreveu um livro de memórias e outro intitulado ‘‘Brasil: País do Futuro’’, em que Zweig definiu o Brasil como um verdadeiro paraíso para a mistura de culturas.
Com um texto simples e cheio de detalhes históricos, Dominique utiliza com destreza a fórmula de contar a trajetória de Zweig tendo como pano de fundo o período negro que passou a humanidade na primeira metade do Século XX. Autora de outras biografias, como ‘‘Roman Gary’’ e ‘‘Gala: A Musa de Éluard e Dal풒, Dominique deixa a sensação de que o ideal de Zweig ainda não desapareceu. E que seus medos e sonhos ainda são pertinentes.
• ‘‘Stefan Zweig - Uma Biografia’’, de Dominique Bona. 390 páginas. Editora Record. Preço: R$ 35,00

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