Guerras não têm vencedores e deixam cicatrizes doloridas
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quarta-feira, 02 de março de 2022
Marco A. Rossi 

Aprendi com Professor Fausto, responsável pela disciplina de História na maior parte de meu antigo ginasial e também do velho colegial, que a guerra não produz vencedores, só derrotados. No fim das contas, só há sofrimento e memórias tristes. Aqueles que se veem em condições de regozijo logo percebem que vivem de ilusões – a guerra, para todos os efeitos, é morte e destruição.
Essa crença ajudou a moldar meu incontornável pacifismo. Acredito que o diálogo é fonte de extrema sabedoria. Quem sabe dialogar consegue dominar a si mesmo e antecipar os resultados de ações pensadas, ajuizadas, racionalizadas. A troca de informações e experiências possibilitada pelo diálogo ajuda na autocrítica e colabora bastante na hora de dimensionar a importância dos outros em nossas vidas.
O sentimento de guerra, ao contrário, é pura petulância, desejo de encerrar toda conversa. Putin, o líder russo, apesar de suas mais de duas décadas no poder, não aprendeu muito sobre a desgraça da guerra. Ele permanece se imaginando à frente da “Grande Rússia”, de um império diante do qual todas as nações do mundo irão render admiração e temor.
No momento em que escrevo essas linhas, todas as democracias do mundo rejeitam a invasão à Ucrânia e prescrevem sanções políticas e econômicas contra a Rússia. Na verdade, inocentes é que pagam pelo declínio belicoso de seus líderes, sem com nada concordar.

A pior herança da guerra são suas memórias de perda e arrependimento. No futuro, não faltará tempo para lembrar os projetos interrompidos, as vidas precocemente ceifadas, a destruição da paisagem urbana, os momentos de terror e solidão. A guerra pode durar só alguns dias, mas essas memórias são eternas – mais uma prova de que a guerra não chancela vencedores.
À primeira vista parece que o que está em jogo é uma anexação territorial ou um desejo de combater um mal maior (Putin, por exemplo, alega que a Ucrânia, governada por um judeu, tem de ser “desnazificada”). Um olhar mais atento permite antever mais coisas: ampliar poder político, demonstrar força, avisar incautos sobre as consequências de suas atitudes etc.
A Rússia quer, sim, derrubar o governo ucraniano; seu intuito, contudo, é dominar o país vizinho, colocá-lo aos seus pés. Com isso, interrompe o expansionismo da OTAN e passa a perseguir, mais uma vez, o sonho da “Grande Pátria”. Nos melhores cenários, isso permite projetar mais guerras no horizonte. Todo avanço militar é sinônimo de menos democracia (ou, se preferirem, menos diálogo).
A mentalidade armada só enxerga inimigos. Quem se arma até os dentes não tem outro propósito a não ser se ver livre ou protegido dos indesejados. É assim com as políticas de armamento da população e é assim também com as declarações de guerra a outros povos. Há uma linha fina que aproxima e junta essas duas formas de ver e ser no mundo.
A paz, de outro modo, pede convergência, clama por negociação, parte do pressuposto que todos podem ser vencedores, cada um a seu modo.
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A opinião do colunista não reflete, necessariamente, a da Folha de Londrina.


