Guerra por audiência atrapalha inovação
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 2008
Patrícia Villalba<br> Agência Estado 
Guel Arraes comanda hoje o núcleo responsável por não mais que 13 minutos das duas horas e meia do ''Fantástico'', da Globo. Mas não é que esse tempinho parece bem mais? Talvez seja porque, fora o texto bem amarrado, o diretor tenha escalado algumas das mais carismáticas estrelas globais que fazem humor - Ingrid Guimarães, Otávio Muller, Heloísa Perissé, Fernanda Torres, Evandro Mesquita. Esse, claro, é um dos caminhos tentados para reverter a queda de audiência do programa dominical, hoje em torno de 23 pontos. E, também, um avanço no modelo que Guel vem testando, uma mistura bem sacada de jornalismo e ficção.
O quadro ''Sexo Oposto'' é assim. Fernanda e Evandro divertem expondo as diferenças entre homens e mulheres, com piadas embasadas por dados científicos. Sobre ele, o diretor, dramaturgo e roteirista falou, numa entrevista em que repassa sua carreira na TV e parte de suas influências.
Dá para perceber que é cada vez maior a dose de dramaturgia no Fantástico. Por quê?
Sempre procuramos fazer pelo menos um quadro que misturasse ficção e jornalismo, como o ''Retrato Falado'', porque combina com o ''Fantástico'', que é uma revista. Mas a gente tinha a intenção de integrar ainda mais a ficção ao jornalismo. Resolvemos criar uma redaçãozinha e trabalhar como o ''Fantástico'' trabalha. Os redatores de humor participam da reunião de pauta e, às vezes, criam quadros integrados. Assim, o formato fica mais integrado ao programa, que não pára para exibir um esquete e recomeça - o humor fica diluído.
Já tem a medida de até que ponto quadros como esses podem contribuir para melhorar a audiência do programa, uma vez que vocês escalam alguns dos atores mais carismáticos da casa?
Como agora temos mais formatos, podemos variar mais o elenco. Mas não sei quanto isso contribui para a audiência. Nossa medida é mais ou menos a de que, se estamos empolgados para fazer, pode estar empolgando. Temos a sensação, pelo menos, de estar num processo diferente. Você termina sempre contando as mesmas histórias, mas o caminho é diferente.
Mas a queda de audiência do ''Fantástico'' é algo que preocupa você?
O que se chama briga pela audiência existe desde sempre. Ninguém quer ficar falando enquanto o público dá as costas. Pode ser visto por esse lado e também pelo lado do ''vamos fazer qualquer coisa pela audiência''. Mas o lado ''vamos interessar'' é uma preocupação, mesmo quando você não olha o número. O que houve é que agora isso está mais presente. Quando eu comecei a fazer novela na Globo, nem sabia qual era a audiência que ela dava. Sabia às vezes no fim, quando a novela acabava, como um balanço. Hoje, você vê dia por dia.
Por que temos a impressão de que a TV dos tempos do ''Armação Ilimitada'', da ''TV Pirata'' e da novela ''Vale Tudo'' era mais experimental que a de hoje? Tem a ver com a abertura política e a maior liberdade?
Acho que tem um pouco disso, era uma época de muita empolgação. E entrou uma nova geração na TV, houve todo um contexto favorável. E era mais fácil, porque não existia guerra de audiência, então havia mais possibilidade de experimentação. Acho que a briga pela audiência, embora tenha um lado bom, tem um outro ruim, porque os projetos-limite, num curto prazo, ficam ameaçados. Na hora da concorrência, você vai no que tem retorno certo. Mas a médio prazo, esses projetos, ao contrário, terminam mais valorizados, porque quando a audiência equilibra um pouco, se diferencia quem faz algo além do feijão com arroz. Temos de tomar cuidado para, na guerra de audiência, não jogar o bebê na água do banho.
Já ouvi falar da turma do Guel Arraes. Ela existe mesmo, é superdifícil entrar nela?
Eu faço parte de uma turma, só tomo cuidado para que não vire panelinha. Se tem uma coisa que a gente inventou, como método de trabalhar em TV, é a TV de turma. Deve vir da nossa formação. Nos anos 70, a gente fazia tudo em grupo, e a minha formação é dessa época. A TV é um meio extremamente competitivo e setorizado, por isso, acho que esse espírito de turma é a melhor coisa. Tem o perigo de você se fechar e não renovar, mas tem a vantagem de você ter uma companhia de autores e atores que aceleram o processo de um trabalho para outro.
Você vê trabalhos seus, como ''O Auto da Compadecida'', como parte do cinema do sertão pop, como Lírio Ferreira e Cláudio Assis? Se sente parte do cinema pernambucano?
Se você for ver, em 20 e tantos anos de carreira, eu tive dois trabalhos nordestinos, o ''Auto'' e o ''Lisbela e o Prisioneiro''. Eu costumo dizer que fui repernambucalizado, por causa do ''Auto'', basicamente. Seria pretensão minha dizer que tenho a ver com aquilo lá (o cinema pernambucano). O ''Auto'' é um projeto que tem coisas mais modernas, mas é quase uma tirada de chapéu à geração anterior, a Ariano, a meu pai. É muito diferente do trabalho do pessoal de lá. O ''Lisbela'' tem um pouco mais a ver, é um mergulho no universo brega, mas mesmo assim é mais parecido com a nossa tradição de comédia. Cineastas como Lírio e Cláudio Assis nasceram do movimento mangue, são mais genuínos. Tenho essa memória, mas a minha formação profissional não veio daí.
Sua formação vem do cinema francês, com Godard e Glauber Rocha como referências. Depois, você caiu na chanchada de Silvio de Abreu, que é antítese do Cinema Novo. E ficou na TV, por fim. Teve crises de consciência ou essa transição foi leve?
Tive um pouco, sim. Foi uma guinada radical na que eu imaginava que ia fazer. Eu tinha saído do Brasil com 17 anos (para viver na França, por causa do exílio político do pai, Miguel Arraes), voltei com 28. Saí do Recife, voltei para o Rio. Saí na ditadura, voltei na abertura. Era outro país, e eu era outra pessoa. Tinha o Brasil idealizado por mim, que era mais o Cinema Novo, e o Brasil real, digamos, que era mais o que aparecia na TV. A TV foi pra mim uma carnavalização. Eu achava que estava passando uma chuva, que ia só fazer um trabalho e depois ia fazer cinema. Mais fui ficando. Só uns meses depois, fui entender a importância do que estava fazendo.


