Agência Folha
A primeira impressão de ‘‘Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma’’ - que estreou hoje de madrugada no País - vem da surpresa que reservam os primeiros minutos. Em lugar de um santuário futurista - como seria previsível - é ao passado que George Lucas remete seu espectador. Parece que entramos em um túnel do tempo, sim, mas na direção contrária: no sentido de um desses velhos seriados, em que o futuro existia muito mais graças à imaginação de seus fãs do que a qualquer tipo de efeito especial.
Também ‘‘A Ameaça Fantasma’’, em vez de criar a esperada impressão de real, parece se esmerar na proposição de imagens francamente artificiais. Desde aí, George Lucas propõe um modo paradoxal de observar as coisas, norteado ao mesmo tempo pelo delírio tecnológico (na verdade, Lucas dedicou-se mais aos efeitos especiais do que à direção de filmes, ao longo de sua carreira) e pelo sentimento nostálgico.
Daí resulta que ‘‘A Ameaça Fantasma’’ seja um caso de arcaísmo futurista, onde toda a tecnologia contemporânea está a serviço de ressuscitar o espírito das matinês do tempo do onça.
Talvez seja por isso que a crítica torceu o nariz ao filme. Com efeito, para quem quiser torcer o nariz não faltam argumentos. O primeiro deles é a trama inicial, envolvendo conflitos entre a Federação Comercial e o planeta Naboo, ambições de um senador (o futuro imperador Palpatine), tentativas de acordos de paz por Cavaleiros Jedi e traições várias - quase tão complicada quanto a da Guerra dos Bálcãs, só que destinada a ilustrar e justificar a trilogia filmada originalmente (episódios de 4 a 6). Esse prólogo revela-se de pouca importância imediata. O filme lança efetivamente sua história a partir da descoberta por Qui-Gon Jinn (Liam Neeson), mestre Jedi, e seu aprendiz Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) do jovem Anakin Skywaker, garoto superdotado para quem Qui-Gon prevê um luminoso futuro como Jedi (ele será em episódios futuros o pai de Luke Skalwaker e o futuro Darth Vader).
Desde então, ‘‘A Ameaça Fantasma’’ está em seu território. Unindo um tanto de sabedoria samurai com o espírito dos pioneiros do Oeste, o filme projeta seu espectador em um mundo amplo, ilimitado, desconhecido - um território intocado, ainda por conquistar.
Nesse ponto, o filme reencontra o espírito do ‘‘Guerra nas Estrelas’’ original. Estamos em um faroeste espacial, onde toda a ação existe em função da história a ser contada, e onde os temas não surpreendem a ninguém (implantação da lei, autocontrole dos heróis, contraste entre heróis e mortais, luta entre justos e opressores etc.). Daí vem boa parte do encanto do filme. Apesar da ritualística envolvendo Jedis etc., essa ponta de pensamento oriental não chega a impressionar.
‘‘Ameaça Fantasma’’, a exemplo de toda a série, não é ‘‘para pensar’’, não se justifica como tal e felizmente nos priva das reflexões metafísicas sobre o sentido da vida e o futuro da espécie, tão correntes nesse gênero de fábula.
O que interessa nele é o reencontro de um espírito infantil e a confrontação com um universo vasto, desconhecido, território aberto a todos os sonhos de conquista.
Embora não seja o maior filme de todos os tempos, ‘‘A Ameaça Fantasma’’ é dotado das virtudes necessárias para fazer os velhos cinéfilos reencontrarem o prazer de suas matinês, para os cinéfilos coroas renovarem o encanto que foi seu primeiro contato com ‘‘Guerra nas Estrelas’’, há 22 anos, e para a garotada de hoje se iniciar no gosto do cinema com alegria e entusiasmo.

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