Guerra hedionda e em alta definição
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Veneza, especial para a Folha2 
Por que a América não aprende com os erros de guerras passadas ? pergunta o jornalista grego ao diretor Brian De Palma durante entrevista coletiva logo após a exibição de Redacted, o contundente libelo-denúncia que o diretor trouxe ao Festival de Veneza. É uma boa pergunta, De Palma responde sorrindo de maneira irônica, porque os arquitetos desta guerra do Iraque estavam lá mesmo, naquela do Vietnã. Claro, eles não serviram o exército, mas observaram tudo aquilo para repetir agora.
Há um ano exatamente, De Palma dizia em Veneza que, após Black Dahlia, filmaria uma pré-história de Os Intocáveis. Felizmente as coisas se deram contrárias ao desejo do diretor (The Untouchables: Capone Rising está parado do estágio de pré-produção). Uma proposta da produtora HDNet para que ele rodasse em vídeo de alta definição um filme sobre a guerra do Iraque conduziram o diretor a Redacted.
A dezoito anos de Pecados da Guerra, o diretor volta a reunir um grupo de soldados born in USA (nascidos nos Estados Unidos) responsáveis por um massacre dentro do massacre. Em Casualties of War, com Michael J. Fox e Sean Penn, jovens soldados estupravam e matavam uma garota vietnamita.
Aqui, a barbárie se repete no Iraque. De Palma partiu de um fato verídico: em maio de 2006, uma adolescente iraquiana foi violentada, morta e incendiada, e a família exterminada por soldados americanos. Mais uma vez uma guerra insensata produziu uma tragédia insensata, afirma o diretor.
Para narrar o crime hediondo, ele criou uma experiência cinemática única, uma narrativa que junta ficção e fartos fragmentos de violência real. Está tudo na internet, diz ele, encontrei tudo lá, diários dos soldados em vídeo, blogs, material disponível no YouTube, documentários, imagens produzidas por camêras de vídeo-vigilância, testemunhos on-line. Ele então deixou todo o material redacted, isto é, editado, mas conservando (e não expurgando) o lado mais sensível e transformador da informação.
A discussão fértil que o filme propõe não é somente quanto ao comportamento ignominioso do grupo de soldados estacionado em Samara, local do crime. Mais uma vez está posto o desafio da ética da produção e circulação da notícia, do poder da mídia e como o poder da imagem, a partir de sua produção, apresentação e distribuição universal, pode influenciar as idéias e as crenças das pessoas. De Palma pretende que o Redacted seja um filme amplamente visto em todas as partes. Mas sabe que não será tarefa fácil.
George Clooney é mesmo um carismático incorrigível. Ele, como habitante da região do Lago de Como, aqui próximo a Veneza, anda sempre por estas paragens, e já se tornou uma espécie de filho adotivo da terra. Ontem chegou para acompanhar a exibição do filme em que é ator principal, Michael Clayton. É um daqueles filmes sólidos, de repertório neo-liberal, socialmente empenhado, democrata, bem escrito e dirigido (pelo estreante Tony Gilroy).
Clooney é o advogado em mau momento da vida. Tem dívidas, está em crise existencial. É exímio advogado, espécie de coringa em firma grande que tem grandes clientes. Entre estes, uma inescrupulosa corporação multinacional cujos defensivos agrícolas fazem um mal danado aos fazendeiros. Clayton/Clooney se envolve de fato nesta cruzada, e vira o grande herói do civismo e da democracia.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.


