Guerra de vontades
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Rodolfo Lucena<br>Folhapress 
São Paulo - As primeiras cenas de "Invencível" parecem coisa de videogame. A esquadrilha de aviões de guerra surge ao longe para, aos poucos, tomar conta da tela e mergulhar nos olhos na plateia. Há tiros, explosões, incêndios e a tensão cresce até que os heróis finalmente lançam suas bombas.
Faz tudo parte do DNA cinematográfico da diretora, a atriz Angelina Jolie, em sua segunda incursão por trás das câmeras. Talvez lhe tenha sido útil a experiência de viver a heroína de games Lara Croft.
Mas foi preciso muito mais que correria e sangue escorrendo para contar na telona a trajetória de Louis Zamperini, corredor olímpico e herói da Segunda Guerra Mundial.
A história beira o inacreditável. Nascido pobre, filho de imigrantes italianos, o jovem Zamperini foi resgatado da delinquência pelo sucesso que obteve correndo: chegou a fazer parte da equipe norte-americana que disputou a Olimpíada de Berlim-1936. Não ganhou nada, mas seu desempenho nos 5.000 m, com uma espetacular última volta na pista, entrou para a história.
Na Segunda Guerra, seu avião se esborrachou no mar. O soldado saiu vivo e ficou à deriva no Pacífico por mais de um mês e meio, bebendo sangue de aves, comendo peixe, enfrentando tubarões.
Quando o resgate veio, os salvadores eram os inimigos: Zamperini vai direto para os campos de prisioneiros, onde se torna a vítima predileta de um sádico comandante.
O americano enfrenta seu algoz e faz da resistência aos maus tratos sua redenção: trata-se de uma guerra de vontades, contada em detalhes na biografia "Invencível", de Laura Hillenbrand, em que o filme é baseado.
Lançado nos EUA em 2010, o livro já vendeu mais de 4 milhões de exemplares. Quem leu "Invencível" pode sentir falta de algumas passagens ou notar eventuais incongruências entre o texto e o filme.
Independentemente disso, os roteiristas - entre eles os oscarizados irmãos Coen - e Jolie souberam destacar os episódios definidores da epopeia de Zamperini sem transformar a fita em dramalhão.
Também não virou um épico religioso, ainda que registre as promessas do náufrago de dedicar sua vida a Deus (por sinal, no início deste mês Angelina Jolie passou o filme no Vaticano e teve breve encontro com o papa Francisco).
O longa também conversa com a vida real. Imagens televisivas mostram o herói do filme em 1998, aos 80 anos, quando foi um dos corredores a carregar a tocha olímpica dos Jogos de Inverno em Nagano, no Japão.
Louis Zamperini morreu em julho passado, aos 97 anos, depois de passar 40 dias no hospital lutando contra uma pneumonia.


