O diretor de cinema Guel Arraes está fazendo uma vitoriosa turnê por cidades brasileiras, divulgando o filme ‘‘O Auto da Compadecida’’. Passou por Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Londrina, seguindo para agora para Porto Alegre. O estrondoso sucesso da minissérie reverbera agora nos cinemas. A princípio, ninguém queria distribuir o filme. Os exibidores começaram a assistir ao trailler e solicitaram cópias. Das oito iniciais já foram feitas 180 cópias. O lançamento do filme, nas principais capitais brasileiras, aconteceu no dia 15 de setembro.
Esse é o primeiro filme que a Globo Filmes produziu inteiramente, graças à repercussão positiva da minissérie (de apenas 4 capítulos). Se esse ‘‘braço’’ da Globo vai acenar para outras produções do gênero ainda é cedo para saber. ‘‘Mas sinto uma mudança de postura psicológica. Vejo produtores se propondo a fazer determinados trabalhos em película’’, disse o diretor, antes da pré-estréia em Londrina, na última quarta-feira. Ele gostaria de seguir o rastro do ‘‘Auto’’. Há perspectivas de transformar a minissérie ‘‘Luna Caliente’’, uma dobradinha com Jorge Furtado, num filme.
‘‘O Auto da Compadecida’’ se traduz numa conjunção de talentos entre dramaturgia (Ariano Suassuna, adaptada por João Falcão e Adriana Falcão), direção (Guel Arraes), atuação (destaque para Matheus Nachtergaele e Selton Mello) e equipe técnica tarimbada (como o diretor de fotografia Felix Monti). Esse know-how para adaptação de obras literárias para a tevê foi conseguido depois de ótimos trabalhos, como ‘‘O Besouro e a Rosa’’, ‘‘O Mambembe’’, ‘‘Lisbela e o Prisioneiro’’, entre outros. O estilo Guel na direção pode ser resumido numa simbiose da linguagem entre cinema e tevê, sempre de namoro com a comédia farsesca. O diretor inovou a linguagem televisiva brasileira com programas como ‘‘Armação Ilimitada’’ e ‘‘Programa Legal’’. Em ‘‘O Auto da Compadecida’’, ele procurou esquecer o rito de iniciação que é fazer o primeiro longa.
A terceira versão cinematográfica de ‘‘O Auto da Compadecida’’ recebeu água benta do dramaturgo Ariano Suassuna, autor do clássico teatral brasileiro, escrito em 1955. A concepção de Guel Arraes agradou ao escritor, que não disfarça seu contentamento com o resultado. ‘‘O filme correspondeu inteiramente à confiança que eu depositei em Guel quando foi fazer o seriado’’, declarou Ariano. Além da Compadecida, excertos de outros dois textos – ‘‘A Pena e a Lei’’ e ‘‘Torturas de Um Coração’’ – foram absorvidos na trama, sendo daí pinçada a mocinha do filme (Rosinha). Guel pesquisou Bocaccio (Decameron), e histórias farsescas da Idade Média.
O nordeste, na concepção de Arraes, é um ponto de união entre os brasileiros. E filmes de sucesso como ‘‘Central do Brasil’’, ‘‘Eu, Tu, Eles’’ e ‘‘O Auto da Compadecida’’ têm o sertão decidindo a vida dos personagens. ‘‘Isso, de certa forma, é uma junção da ideologia do cinema novo com um tratamento artístico mais profissional, pela assimilação de novas técnicas’’, avalia Guel.
Em Londrina, durante o projeto Sessão Brasil, Guel participou de um debate com alunos da Unopar, sob olhares atentos de mais de 400 estudantes. ‘‘Esse contato com o público, para mim é novidade’’, disse. Segundo o diretor, a obra ganha o público em função da linguagem simples, bem humorada, divertida, com uma mensagem humanista-cristã. Sem falar que o texto teatral há décadas habita o inconsciente coletivo do brasileiro, consequência das montagens escolares. O público londrinense recebeu as aventuras de João Grilo e Chicó com aplausos mais que calorosos, emocionando o diretor. Na tela, a empatia com João Grilo é instantânea. Afinal, Grilo é um dos maiores personagens da literatura universal. Com a interpretação inspirada de Matheus Nachtergaele, a obra tem a chance de realmente ganhar o mundo.
A Sessão Brasil é patrocinada pelo Banestado e Top Brasil, através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Rio Sul e tem apoio cultural da Unopar e Cines Catuaí.

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