Dia 6 de março o Teatro Guaíra abre oficialmente a temporada de 1999 com um concerto de gala da Orquestra Sinfônica do Paraná. Aproveitando a data será inaugurado, com a devida pompa, o decantado ar condicionado, que ultimamente vinha sendo cobrado pelos frequentadores da casa, especialmente no verão.
A informação é de Mônica Rischbieter, presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra, que antevê novos tempos para esse complexo. Se vingarem os planos que ela tem em mente, o teatro sofrerá mudanças interna e externamente, com uma renovação de oxigênio que vai além do ar condicionado.
Mônica reclama que o Teatro Guaíra enclaurou-se em si mesmo. Com o passar dos anos transformou-se numa concha entre dois centros importantes em Curitiba: a Universidade Federal do Paraná na Praça Santos Andrade e a Reitoria. Ela não aceita esse distanciamento do CCTG com a comunidade. A seu ver é preciso que o teatro abra-se à cidade, dialogue com seus habitantes.
Sua função não é somente a de ter um palco: ‘‘Quero o teatro conversando com as pessoas’’, diz. Para isso conta com um local privilegiadíssimo: ‘‘Tem tudo para ser um lugar onde as pessoas parem, entrem, conversem’’, argumenta. Um de seus objetivos: instalar um café-concerto, que poderia se transformar em point aos apreciadores das artes.
Aos que duvidam das possibilidades, Mônica discorre sobre as qualidades do teatro:
Mauro FrassonMônica Rischbieter quer que o Teatro Guaíra seja notado e planeja para o espaço um perfil de centro cultural- Temos um museu muito bacana que está sendo repensado, reorganizado. Temos uma biblioteca com um acervo muito rico de teatro. Este é um local muito bonito, que já foi referência dos cartões postais. Temos uma praça aqui em frente... O ideal seria ver as pessoas lendo jornais nos bancos aqui perto. Mônica assumiu um mandato-tampão em 1998, com a entrada de Lúcia Camargo na Secretaria da Cultura, e foi confirmada sua gestão para os próximos quatro anos. ‘‘Os primeiros meses que passei aqui foram para tomar pé da situação; eu tinha que conhecer isto a fundo para saber como trabalhar’’.
Hoje se confessa apaixonada pelo local. ‘‘Aqui se trabalha com arte, com a criação. É natural que haja um elemento diferente, muito mais fascinante que em outros lugares’’, explica.
Pois é, mas ainda assim o Teatro Guaíra é um ovo ocupando um quadrilátero no centro da cidade. Para abri-lo à comunidade e deixar que o sol e o ar transitem por ele, são necessárias algumas mudanças não só a nível administrativo, como de ordem prática.
Trocar os vidros das janelas estaria entre as primeiras medidas. ‘‘Parece bobagem incomodar-se com os vidros. Mas não é bobagem quando você trabalha num lugar completamente vedado, e não sabe se lá fora está chovendo ou fazendo sol. É limitante; a gente precisa ver a cidade. E quando digo ‘a gente’, refiro-me ao corpo administrativo da casa. Precisamos dessa abertura’’.
Mônica também quer que o prédio seja visto pela população. Para que isso aconteça, imagina uma iluminação externa que lhe dê destaque. Os principais cartazes em temporada contarão com banners, que emprestam um ar de modernidade e sofisticação. Os planos não terminam aí.
‘‘Precisamos iluminar este teatro com luz por dentro e por fora. Precisamos dar maior ênfase às luzes da magia, desse mistério que existe na arte. Isto é um centro cultural, então pensamos em fazer oficinas de formação de críticos, por exemplo’’.
Abri-lo para a comunidade significa até mesmo abrir as portas para visitação pública. Há muito que ser visto, basta trazer à tona suas riquezas, como a contrarregragem e o guarda-roupa, com seu ‘‘acervo maravilhoso’’. ‘‘Passear por este teatro é uma coisa maravilhosa, é uma lição de arquitetura, de magia, de mistério. Temos pedidos de turistas e às vezes montamos excursões aqui por dentro’’, conta.
Outro ponto a ser mexido no Guaíra é o da informatização das bilheterias. No momento são impressos bilhetes para até três espetáculos. Mais que isso é impossível: ‘‘Temos problema de espaço’’, reconhece Mônica. Desde que se informatize o setor, será possível pensar em novos avanços, como a venda antecipada dos ingressos meses antes do espetáculo e inclusive a comercialização de assinaturas para a temporada.
Outro projeto em estudos é a inclusão do Teatro Guaíra nos pacotes turísticos. Se vingar, os turistas que aportarem em Curitiba terão oportunidade de assistir às montagens em cartaz que vai de uma peça teatral à ópera, de um show de música popular a um recital ou concerto sinfônico.
Para que tudo isso aconteça são necessários recursos. ‘‘Vamos tentar formar parcerias com o empresariado, para grandes produções’’, planeja a presidente do CCTG. A Copel e o grupo Positivo são algumas das empresas que foram algumas das parceiras ideais, ano passado.
A crise econômica está aí, mas nada impede que se procure alternativas para contornar as dificuldades. ‘‘Não podemos ficar à espera de que tudo se solucione para depois corrermos atrás’’, comenta Mônica. Ela explica que através da Lei Rouanet terão prioridade os projetos artísticos; e para a manutenção do patrimônio serão buscadas outras formas de recursos.
Uma frase usada por Mônica logo depois de ter assumido o posto, ano passado, era de que haveria uma faxina geral no Teatro Guaíra. A palavra ‘‘faxina’’ era uma brincadeira pelo fato do CCTG ter no comando apenas mulheres: na presidência e nas diretorias artística e financeira.
Essa mudança está em vias de acontecer. ‘‘Queremos tirar muita coisa, reorganizar arquivos, espaços, arejar o prédio. Ele tem muito porão, muitas entradas, muitas portinhas. É preciso facilitar a comunicação, os acessos. Vamos rever tudo isso para uma ocupação de espaço’’, continua a presidente. ‘‘Mas não vamos derrubar paredes’’.
Uma das salas mais simpáticas da cidade é o auditório Salvador de Ferrante, o Guairinha. Há uma crença no meio artístico de que a sala é destinada apenas às peças teatrais, sem acesso aos músicos. Essa determinação não existe. Porém, atendendo solicitação da classe, serão lançados editais de ocupação tanto para o Guairinha como para o Teatro José Maria Santos.
‘‘Temos hoje muita qualidade no teatro paranaense; ele está num momento de maturidade’’, aplaude Mônica. Houve uma revolução na categoria; peças e atores da melhor qualidade estão ocupando os palcos tradicionais e alternativos, sem dever nada às produções que chegam de fora. ‘‘O público curitibano tem que consumir mais o nosso teatro, ver o que o Paraná está fazendo. É um grande teatro’’.
Entusiasmo pelo trabalho é que não falta. ‘‘Acho que este será um ano muito bacana para o Teatro Guaíra’’, antevê a presidente. Ela acrescenta que está sendo criada a Associação de Amigos do Teatro Guaíra e que muita coisa poderá acontecer. ‘‘Estamos no início do ano, não sabemos como o mercado do show biz vai se comportar. Enfim, sonhar a gente pode; não pode é desvendar o futuro’’, argumenta.

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