Grupos Tapa e Folias preparam co-produção
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segunda-feira, 27 de setembro de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 28 (AE) - Quando duas empresas de reconhecida competência decidem unir forças numa parceria comercial ou industrial, suas ações se valorizam na bolsa e o mercado comemora. Acaba de ocorrer uma parceria na produção cultural que mereceria ser comemorada com o mesmo rebuliço. O Grupo Tapa, dirigido por Eduardo Tolentino de Araújo, e o Grupo Folias DArte, de Marco Antônio Rodrigues, preparam sua primeira co-produção.
Desde abril, eles ensaiam o musical "Happy End", de Elizabeth Hauptmann, colaboradora de Bertolt Brecht, com elenco formado por 12 atores de ambos os grupos, entre eles Renata Zhaneta (Folias) e Guilherme SantAnna (Tapa). Com direção de Rodrigues, o espetáculo deve estrear em janeiro na sede do Folias, em Santa Cecília, região central de São Paulo, um galpão cedido pela Fundação Conrado Wessel. Mas antes disso, as companhias fazem uma espécie de prévia do que será essa dobradinha com duas apresentações, amanhã e quinta-feira, do show "Surabaya, Johnny!"
No palco, os atores tocam instrumentos de cordas e sopro
interpretam canções de Bertolt Brecht e Kurt Weil e ainda atuam em curtos e ótimos esquetes teatrais no espetáculo que tem roteiro de Reinaldo Maia. As letras das canções foram traduzidas por Lilian Blanc, atriz de origem alemã do Folias, com a colaboração de Maia e Rodrigues. Por enquanto, serão só duas apresentações na Cervejaria Continental, mas "Surabaya" deve entrar em temporada em novembro no Teatro da Aliança Francesa, sede do Tapa, que tem o apoio do Pão de Açucar.
SantAnna atua como narrador e, entre as canções e os esquetes, vai traçando um panorama da Berlim dos anos 20, na qual viveram Brecht e Weil: corrupção, desemprego, miséria, assaltos. "Qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência", diz. O panorama sombrio e a reflexão levada ao palco não eliminam a beleza e o humor do espetáculo, que tem entre os seus pontos altos a interpretação da atriz Renata Zanetha para a a canção que dá título ao show.
O humor, ainda que ácido, está presente em vários momentos, como no impagável esquete do ventríloquo, no qual Fernando Viana interpreta o boneco manipulado pelo ator Riba Carlovich. Além do ótimo texto, que muito a propósito fala da manipulação dos homens pelos poderosos, a cena vale pelo fascinante trabalho corporal do "boneco" Viana. "Conheço Rodrigues há dez anos e desde então temos o hábito de discutir e criticar a criação mútua francamente, sem nenhuma complacência", diz Tolentino.
Embora com estéticas diferentes, ambos detectam muitas afinidades. "Temos em comum o desejo de discutir o Brasil, seja por meio de montagens de textos brasileiros seja de estrangeiros
mas sempre com situações análogas às vividas entre nós", diz Tolentino. Em "Happy End", o cenário é a Chicago no período da lei seca, quando uma quadrilha de gângsters entra em conflito com um grupo do Exército da Salvação, metáfora encontrada por Brecht para falar da Berlim de sua época. No meio disso, uma das mulheres soldados de Deus apaixona-se por um gângster.
"Tanto na Chicago da Lei Seca como em Berlim pouco antes do nazismo proliferaram as seitas e a atração pelo esoterismo", lembra Tolentino. Mais uma vez, qualquer semelhança com o Brasil será mera coincidência. Serviço - "Surabaya, Johnny!" Musical. De Marco Antonio Rodrigues e Reinaldo Maia. Direção de Marco Antonio Rodrigues. Duração: 65 minutos. Amanhã e quinta-feira, às 21 horas. R$ 20 00. Cervejaria Continental. Rua dos Pinheiros, 1.275, tel. 212-8698


