São Paulo, 15 (AE) - O Grupo Tapa chega ao fim de um ano ímpar - iniciado sob o susto de um abalo econômico que afetou profundamente o setor cultural - orgulhando-se de ter driblado a crise. Depois de ter mantido seis peças simultaneamente no repertório do seu Festival de Inverno, a companhia dirigida por Eduardo Tolentino encerra a temporada com a estréia de "A Serpente", de Nélson Rodrigues, na quinta-feira, às 21 horas, em São Paulo.
Até o fim de dezembro, nove montagens terão passado pelo palco do Teatro Aliança Francesa, sede do grupo. Um balanço mais que positivo. E a companhia tem planos ambiciosos para o ano que vem. "Vamos montar dois textos inéditos de autores brasileiros contemporâneos já no primeiro semestre do ano 2000", anuncia Tolentino. "O Tambor e o Anjo", de Anamaria Nunes, e "Sustenido", de Hélio Sussekind, foram os dois textos escolhidos, o primeiro deles já em fase de ensaios.
E tem mais. A partir de domingo, sobe ao palco do Aliança o show "Surabaya, Johnny!", um divertido espetáculo com músicas de Kurt Weill e Bertolt Brecht, dirigido por Marco Antônio Rodrigues, primeira co-produção do Tapa com o grupo Folias DArte. E ainda permanece no repertório a elogiada montagem de "Navalha na Carne", de Plínio Marcos.
Até o dia 19 de dezembro, todos os espectadores vão pagar meia entrada para assistir a qualquer dos três espetáculos. "Fazer uma temporada popular é também um ato político, uma forma de devolver à população o apoio recebido via leis de incentivo", afirma Tolentino. O Tapa conta ainda com o patrocínio do Grupo Pão de Açucar e o apoio da Aliança Francesa.
Ações - Outro ato político é a participação do diretor no movimento Arte contra a Barbárie, que reúne mais de 400 artistas em torno da discussão de uma nova proposta de política cultural para o País. Como parte do movimento, o prestigiado geógrafo Milton Santos vai fazer uma palestra amanhã, às 20 horas, com entrada grátis, no Teatro Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182, tel. 259-0086). "A atual situação de crise da cultura requer muitas ações simultâneas", comenta Tolentino.
Mas, sem dúvida, a melhor contribuição do Tapa à cultura está no seu repertório. "A Serpente" abriu o ciclo de leituras dramáticas realizado pelo grupo este ano, o que estimulou a atual montagem. A peça conta a história de duas irmãs que se casam no mesmo dia, na mesma igreja, na mesma hora e vão morar no mesmo apartamento.
As coincidências páram aí. Após o casamento, Guida (Denise Weinberg) é feliz com seu marido Paulo (Zécarlos Machado), enquanto Décio (Bruno Perillo) não consegue consumar o ato sexual com sua mulher Lígia (Clara Carvalho). As relações afetivas já conflitadas desequilibram-se de vez quando Guida decide "emprestar" seu marido para a irmã Lígia que, deprimida
ameaça suicidar-se.
Mais uma vez o Tapa promete iluminar um texto visto como menos importante de um grande autor. "Durante o processo de ensaios, descobrimos valores insondados na peça", diz Tolentino. Segundo o diretor, em "A Serpente" Nélson descarna a trama de todo o aparato social para realizar uma prospecção precisa e profunda unicamente sobre o inferno do desejo.
"É como se ele pegasse o texto de "Vestido de Noiva", por exemplo, e tirasse tudo, todo o adorno, para só focar o triângulo amoroso das duas irmãs e o marido," afirma o diretor. "A Serpente" está centrada na cama; não se discute o amor, mas o sexo, esse grande pesadelo que é o desejo; acho muito pertinente falar disso às portas do ano 2000, afinal este foi o século da psicanálise", comenta. "A gente passou cem anos falando disso e, ainda assim, o desejo continua sendo o nosso inferno."

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