São Paulo, 07 (AE) - Mais ou menos como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, o casal de italianos Achilina Bo e Pietro Maria Bardi experimentou uma união duradoura e sólida em torno de alguns princípios que ultrapassavam a mera relação sentimental. Repartiam também o amor pela arquitetura, arte e política.
Sua história, que terminou com a morte de Pietro Maria Bardi, no mês passado, é o que motivou a companhia Nau de Ícaros a montar a peça "O Casamento de Lina". O público pode ver de graça, sábado e domingo. O cenário não poderia ser outro: o Sesc Pompéia, grande e bem resolvido palco da mais ambiciosa projeção de Lina - a de casar a arquitetura com humanismo.
Usando cordas e cadeiras de alpinismo, mosquetões, cabos de aço, pernas de pau, trapézios, cordas indianas, claves, facões, elásticos circenses e fazendo música a partir de congas, agogôs, caxixis, maracas, pandeiros, tambores metálicos, alfaias e djembés, o grupo Nau de Ícaros - grande expressão do nouveau cirque - tenta contar parte da história das realizações da arquiteta.
A proposta é ousada. Projetando-se de artefatos circenses de cima do prédio de 60 metros de altura, a Nau de Ícaros também usa uma estrutura metálica de 7 metros de altura por 6 metros de largura em sua atuação. Técnicas de alpinismo e malabarismo servem para mostrar sua opção por esse híbrido de teatro, circo e vaudeville.
Ao todo, são dez profissionais na equipe técnica, mais seis pessoas na montagem e desmontagem do equipamento. A direção e a concepção do espetáculo são de Marco Vettore, a produção é de álvaro Barcellos e a "engenharia circense" de Alex Marinho.
Pietro Maria Bardi e Lina Bo chegaram a São Paulo em 46. Naturalizaram-se em 51. Sua principal luta foi contra a destruição da memória arquitetônica da cidade, ao mesmo tempo em que intuíam que ela precisava também de sintonia com a modernidade. "Aquilo que a moderna arquitetura sempre prometeu, Lina cumpriu", afirmou o arquiteto inglês Piers Gough em debate sobre a obra dela no Royal Institute of British Architects, em Londres.
Ela se casou com Bardi a contragosto. Não porque não gostasse dele, mas porque era contra a idéia do casamento convencional. Aceitou com o seguinte argumento: casada, ficava mais fácil hospedar-se em hotéis. Em 50, ela construiu a casa onde morariam em São Paulo, a famosa Casa de Vidro - onde Bardi ficou até a morte. Lina morreu em 92. Serviço - O Casamento de Lina. Direção de Marco Vettore. Com a Cia. Nau de Ícaros. Sábado e domingo, às 16 horas. Grátis. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700

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