“(Um) Ensaio sobre a Cegueira”, com o Grupo Galpão, foi um dos destaques da primeira noite oficial de espetáculos da 34ª edição do Festival de Curitiba, que já começou com grande público e alta procura ainda na frente do teatro.

A montagem dirigida pelo premiado Rodrigo Portella levou o Guairinha (Auditório Salvador de Ferrante) à lotação máxima na noite de terça-feira (31) – cenário que deve se repetir nesta quarta (1º), em sua segunda sessão com ingressos esgotados.

Em cartaz na Mostra Lucia Camargo, o espetáculo apresenta uma leitura potente, imersiva e atual da obra de José Saramago (1922–2010), adicionando camadas para além da ficção e propondo uma reflexão sobre o tempo presente.

O espetáculo parte da premissa da “cegueira branca”, epidemia inexplicável que se espalha rapidamente e coloca à prova questões como a ética e o senso coletivo. A narrativa do autor português, publicada em 1995, ganha contornos contemporâneos aproximando a distopia de questões urgentes do mundo atual, divagando entre o caos e a lucidez.

Com adaptações pontuais, a encenação mostra o colapso das estruturas sociais e tensiona os limites entre civilização e barbárie. Em cena, personagens confinados em um manicômio lidam com a escassez, o medo e a deterioração das regras de convivência, em um ambiente onde a sobrevivência passa a ditar novas formas de relação.

A trilha sonora é um dos pontos altos do espetáculo. Assinada pelo compositor italiano Federico Puppi, a direção musical foi desenvolvida em diálogo direto com o elenco durante o processo de criação, que resultou em dez composições originais que ajudam a conduzir o ritmo e a atmosfera da encenação.

Recentemente, “(Um) Ensaio sobre a Cegueira” rendeu a Portella o Prêmio Shell de Melhor Direção de 2026. Ele já havia recebido em 2018 por “Tom na Fazenda”, e acumula outras premiações importantes como APTR e Cesgranrio.

Espetáculo "(Um) Ensaio Sobre a Cegueira", com o grupo Galpão,  lotou o Guairinha em sua primeira noite de apresentação
Espetáculo "(Um) Ensaio Sobre a Cegueira", com o grupo Galpão, lotou o Guairinha em sua primeira noite de apresentação | Foto: Pamela Destacio

ESTREIA EM CURITIBA

A estreia do espetáculo em Curitiba foi marcada por forte impacto junto ao público, que se juntou ao elenco ao final da apresentação em frente ao teatro para longos aplausos.

“Para o Galpão, é fundamental a participação num evento que talvez seja o festival de teatro mais importante do Brasil, que é o Festival de Curitiba. Ao longo de mais de 30 anos, essa é a nossa 17ª participação no festival, o que nos dá e nos deu a oportunidade de apresentar praticamente toda a nossa obra teatral na cidade de Curitiba e no estado do Paraná. Um presente que nos foi dado pelo Festival de Curitiba”, afirmou o ator Eduardo Moreira, integrante do grupo, para a FOLHA.

GRUPO GALPÃO

Fundado em 1982, em Belo Horizonte (MG), o Grupo Galpão é uma das companhias mais importantes do teatro brasileiro. Com origem no teatro popular e de rua, o grupo é formado por 12 atores e construiu uma trajetória marcada pela pesquisa de linguagem e pela forte comunicação com o público.

Ao longo de mais de quatro décadas, consolidou um formato de trabalho colaborativo com grandes diretores, como Paulo José, Gabriel Villela, Márcio Abreu e, agora, com Rodrigo Portella, que ajudaram a moldar a sua identidade artística.

Com circulação intensa, o Galpão já percorreu o Brasil e participou de festivais na América Latina, América do Norte e Europa, articulando tradição e contemporaneidade em cena.

No Festival de Curitiba, esta é a primeira participação do Grupo Galpão sem a presença de sua atriz-símbolo, Teuda Bara, que morreu em dezembro de 2025, aos 84 anos. Figura fundamental na trajetória da companhia, ela é uma das homenageadas desta 34ª edição e dá nome à Sala de Imprensa do evento.

Elenco do Grupo Galpão  festejou com o público na rua, após a apresentação do espetáculo
Elenco do Grupo Galpão festejou com o público na rua, após a apresentação do espetáculo | Foto: Festival de Curitiba/ Divulgação

DOSE DUPLA NA PROGRAMAÇÃO

Rodrigo Portella também assina a direção de “O Motociclista do Globo da Morte”, que integra a programação da Mostra Lucia Camargo com quatro sessões neste sábado (4) e domingo (5), às 19h e 21h, no Teatro Paiol. Os ingressos estão esgotados. Com texto de Leonardo Netto, o monólogo estrelado por Eduardo Moscovis expõe diferentes camadas da violência humana a partir da história de Antonio, um matemático que, em um dia comum, se vê envolvido em uma situação extrema. A partir desse episódio, que transforma sua vida, o personagem revisita os acontecimentos enquanto constrói, diante do público, uma reflexão sobre as múltiplas formas de violência que atravessam a vida em sociedade.

FESTIVAL DE CURITIBA

O 34º Festival de Curitiba começou na segunda-feira (30) e segue até o dia 12 de abril com 435 atrações para todos os públicos. Os espetáculos e atividades são distribuídos por teatros, espaços culturais, ruas e praças da capital e região metropolitana.

Um dos eixos centrais do evento, a Mostra Lucia Camargo concentra produções de destaque nacional e reúne 28 espetáculos de 10 companhias nesta edição, estando muitos deles já com ingressos esgotados. A programação se amplia com outras mostras e projetos, como Fringe, Interlocuções, Mostra Surda de Teatro, Gastronomix, Guritiba, Risorama e MishMash, que transitam entre teatro, dança, circo e gastronomia. A agenda completa está disponível no site do evento - https://festivaldecuritiba.com.br/

Os ingressos variam entre R$ 42,50 (meia-entrada) e R$ 85 (entrada inteira), além das opções gratuitas. A compra pode ser feita pelo site do evento ou pela bilheteria oficial no Shopping Mueller, no Centro Cívico.

mockup