São Paulo, 03 (AE) - O inimigo é o Zé Carioca. Não se trata de uma tese conspirativa como a do chileno Ariel Dorfman e seu livro "Para Ler o Pato Donald", dos anos 70. O alerta é de um grupo sério de psicanalistas junguianas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), que alerta para a difusão de uma imagem estereotipada e anômala do brasileiro por meio do personagem de Disney.
"O Zé Carioca é um personagem antiético terrível, com todos os clichês negativos", diz Denise Gimenez Ramos, professora titular da PUC e co-autora da tese "Os Animais e a Psique" (Palas Athenas, 284 págs.), na qual busca restabelecer conexões simbólicas entre as pessoas e os bichos - incluindo suas representações ficcionais. "O personagem de Disney nunca trabalha, fica em geral deitado numa rede sonhando em ganhar na loteria - é um arquétipo falso, que perpetua o Macunaíma", afirma.
Para as psicanalistas, assim como o Zé Carioca foi forjado em campanha do governo americano, nos anos 40, para aproximar os EUA dos seus aliados sul-americanos, é possível fazer o percurso inverso: outra campanha para extirpar esses símbolos "alheios e viciados" e adotar novos.
O grupo junguiano do qual Denise faz parte não alerta apenas para os riscos que o Zé Carioca representa: quer que se firme uma nova simbologia animal para o brasileiro, para recuperar suas relações primais com a fauna nacional. Segundo a psicanalista, a auto-imagem e a identidade nacionais estão em jogo. Assim como os americanos têm a águia, ela defende a adoção da onça, "sinônimo de poder e de força", para símbolo nacional. "O símbolo é a base da psique", afirma. "Nossos relacionamentos e nossas motivações são baseados em símbolos, assim como a nossa identidade."
De posse de sua tese sobre os animais e a psique humana, recém-publicada pela PUC, Denise tem suscitado curiosidade por onde passa. Na semana passada, defendeu suas idéias durante o lançamento dos novos gibis do Garfield, personagem do americano Jim Davis. Vai discutir isso também durante congressos internacionais no Instituto Junguiano de Chicago e no de Los Angeles.
A psicanalista não tem uma opinião totalmente ruim sobre os personagens importados. Em Garfield, por exemplo, vê qualidades. "Ele é independente, autocentrado, guiado pelo prazer", pondera. "É um personagem que critica a atitude coach potato dos americanos, que sai do sistema capitalista e critica as necessidades humanas, fazendo você rir de si mesmo." Ela sabe o que diz: tem três gatos.
"O cão é o retrato da obediência, da servidão, mas é também muito mais companheiro do que o gato", avalia. "Ele se deixa até contaminar pela personalidade do dono", afirma ela, que diz já ter observado cães neuróticos, deprimidos, anoréxicos
agressivos, medrosos, sempre em ligação com os problemas por que o dono passa.
Segundo a psicanalista, apenas cães e gatos seriam animais bons para o convívio doméstico com o homem. Ela condena a onda recente de criação de bichos exóticos, como iguanas e cobras, em casa. "Não têm nenhuma relação afetiva com os donos", diz. "Você pode condicioná-los, mas não são mamíferos, não têm nenhuma identidade conosco", pondera.
Bem, mas macacos são mamíferos e mesmo assim não se vê nenhum boom de primatas em coleiras no Parque do Ibirapuera. "Primeiro, porque é proibido por lei, graças a Deus", diz. "Depois, o macaco não vai obedecer: ele tem um caráter rebelde, é arteiro, curioso - destruiria a casa."
A relação simbólica entre homem e bicho é detectada como doentia em alguns casos. Os pássaros engaiolados, por exemplo, são a reprodução de algum mal interior que acomete seu proprietário. "O animal na gaiola mostra que seu dono é uma pessoa também torturada, presa", explica. "A relação do brasileiro com os animais baseia-se em geral num grande desprezo pela natureza."
Um exemplo: as crianças conhecem mais elefantes, zebras ou girafas do que os animais da fauna brasileira. "Por que se dá de presente ursinhos de pelúcia, se o urso não existe na fauna nacional?", indaga. "É um culto anglo-saxão e ninguém pensa em dar macaquinhos de pelúcia ou onças."
"Os Animais e a Psique" funciona quase como uma enciclopédia de simbologia animal. O primeiro volume, o recém-lançado, aborda as características da baleia, do lobo, do carneiro, do elefante, do cavalo, da onça e do urso. O gato só virá no segundo, em 2000, entre outros representantes da bicharada.

mockup