GRUPO CONSTRÓI O 'NADA'
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quarta-feira, 09 de maio de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
... O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras, fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora. Depois de Dalton Trevisan e Guimarães Rosa, chegou a vez da obra do poeta matogrossense Manoel de Barros visitar os palcos da Sul Mostra Teatro no Festival Internacional de Londrina (Filo).
O Grupo de Ensaio e Pesquisa Teatral da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (Gepetu), de Dourados, criou o espetáculo Nada a partir da obra poética de Manoel Barros. A montagem, concebida e dirigida por Emmanuel Marinho, será apresentada hoje, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde.
Para Manoel de Barros, há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. Partindo disso, o Gepetu trabalhou a transposição da linguagem poética para o teatro, aproveitando a singularidade da obra do matogrossense. A montagem, de acordo com o diretor, investiga a construção dessa linguagem e a construção/desconstrução da poesia de Barros. O espetáculo não é um recital. A poesia está implícita na montagem, salienta.
Emmanuel Marinho, que há mais de 10 anos pesquisa a transposição da poesia para o palco, dedicou sua tese de pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro para falar da Partitura para Corpo e Palavra. Com base nessa pesquisa pude desenvolver o trabalho com a obra de Manoel de Barros, conta.
O Livro Sobre o Nada serviu de inspiração para o título do espetáculo e foi uma das obras utilizadas no trabalho do grupo. Seguindo a idéia do poeta de que poesia não é para entender, mas para incorporar, o Gepetu integrou todos os elementos da montagem de forma a alinhavá-los à poesia. O resultado é uma poesia plástica, define o diretor.
O espetáculo, com forte apelo visual, traz no cenário um grande andaime de madeira, no qual está se construindo o nada entre pedras, latas e coisas velhas de um canteiro de obras. O material cênico é usado como se fosse a construção da linguagem, explica. Todas as palavras lata, pedra, rosa, sapo, nuvem podem ser matéria de poesia. Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima é também matéria de poesia, diz um dos textos da montagem.
Emmanuel Marinho destaca entre as personagens do espetáculo grupos de crianças, lavadeiras do Rio Paraguai e construtores, figuras presentes na obra do poeta. A trilha sonora, que traz composições de Bach, Beethoven, John Cage e da violeira matogrossense Helena Meirelles, é amarrada no elo da concepção. Assim como as cores da montagem, inspiradas no pintor holandês Hieronymus Bosch, um dos precursores do surrealismo. O figurino, criado a partir de uma oficina de Samuel Abrantes, e a iluminação da carioca Adriana Ortiz fecham a poética plástica de Nada.
O diretor Emmanuel Marinho foi convidado a trabalhar com o Gepetu em 1998. Para chegar à estréia da montagem em 2000, o grupo estudou Manoel de Barros por um ano, em aulas e ensaios. Mas a pesquisa não terminou. Com a proposta de fazer uma obra aberta, o Gepetu está em permanente processo de criação.
Nada, espetáculo com o Grupo de Ensaio e Pesquisa Teatral da UEMS (Dourados). Concepção, encenação e cenário: Emmanuel Marinho. Luz: Adriana Ortiz. Figurino: Marcello Lima. Assistente de figurino: Carini Lopes. Concepção musical: Gepetu. Operadora de som: Daniele Zanco. Preparação vocal: Rita Lunas. Duração: 45 min.


