São Paulo, 26 (AE) - É música para monge nenhum botar defeito e enlevar a alma do pior dos pecadores. Amanhã (27), às 19 horas, no Mosteiro de São Bento do Rio, o conjunto carioca Calíope, regido pelo maestro Júlio Moretzsohn, faz um concerto de lançamento do CD do grupo, com um repertório dedicado ao melhor da música colonial brasileira do século 18, com obras de Emerico Lobo de Mesquita, do padre José Maurício Nunes Garcia e do compositor barroco português João Rodrigues Esteves. Se você não puder assistir à apresentação, poderá comprar o disco pelo e-mail [email protected].
Criado em 1993, o Calíope reúne 12 cantores, acompanhados por dois instrumentistas (órgão positivo e violoncelo barroco, em réplicas de época), dedicados à interpretação do repertório vocal pré-barroco e barroco, europeu e brasileiro. Seu diretor, Júlio Moretzsohn, é professor de regência coral e música de câmera na Universidade do Rio de Janeiro. Juntos, ganharam o respeito da crítica musical carioca com suas versões de obras de Henry Purcell e de Monteverdi, de quem fizeram, no ano passado, o "Orfeo", na Sala Cecília Meireles, no Rio.
Para o CD e para o concerto de amanhã à noite, o Calíope juntou dois mestres brasileiros, Lobo de Mesquita (Missa a Quatro Vozes para a Quarta-Feira de Cinzas, de 1778) e o padre José Maurício (Motetos para a Semana Santa), a um menos conhecido colega de ofício lusitano, João Esteves (1700-1755), autor de um tocante "Stabat Mater". É uma chance rara de ouvir o que se compunha para além dos mundos maravilhosos e perfeitos de Bachs e Haydns, sem que, no entanto, isso signifique música destituída de valor.
Não se pode esquecer que o mulato (neto de português e uma escrava) José Maurício foi elogiado por Mário de Andrade em suas buscas pelas raízes do nacionalismo musical brasileiro e foi o responsável pela estréia, no País, do "Réquiem", de Mozart, e de "A Criação", de Haydn. Chamado pelo músico austríaco Sigismund Neukomm de "o melhor improvisador do mundo", o padre ganhou prestígio com a chegada da família real ao Brasil, prestígio só abalado com a concorrência a Salieri do luso Marcos Portugal. Foi também um dos nossos primeiros pedagogos musicais, autor de métodos e um professor de primeira por 28 anos.
Lobo de Mesquita não teve tanta sorte. Organista de mão cheia, o mineiro foi autor de mais de 300 obras, mas as suas partituras desapareceram com o tempo e o descaso. O que restou desse criador notável foram apenas partes avulsas, aos poucos reunidas graças ao esforço de musicólogos. Ainda assim, os especialistas não pensam duas vezes em afirmar que o filho de escrava alforriada, que tocava na mesma igreja frequentada por Chica da Silva, foi a figura de proa do barroco mineiro.

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