São Paulo, 11 (AE) - Ok, depois da gripe adolescente do Red Hot Chili Peppers, que terminou seu show com uma mensagem de Papai Noel de shopping center ("Sejam legais, sejam gentis uns com os outros", disse o baixista Flea, com sua vozinha infantil), chegou o antídoto: os neodadaístas do grupo alemão Einsturzende Neubauten. Eles tocam amanhça (12) no Sesc Belenzinho, em São Paulo, como parte do evento multimída "1999 Reticências..."
Pouca gente os conhece deste lado do planeta, mas deveria. Criada em Berlim, em 1980, Neubauten é a primeira banda de rock industrial a globalizar seu som. Influenciou meio mundo, dos conterrâneos do Rammstein ao careteiro Marilyn Manson. No domingo, seus integrantes já estavam em São Paulo, participando de um churrasco no Instituto Goethe, que promove sua turnê ao redor do mundo. O nome do grupo quer dizer algo como "edifícios novos e já ruindo" e remete a uma das inúmeras citações políticas que o grupo faz - prédios malfeitos e superfaturados que foram feitos em Berlim e, meses após a construção, já estavam rachando.
Mas um nome pode conter muitas surpresas. Ende (de Einsturzende) é fim, em alemão. E Neu (de Neubauten) é o novo, o começo. Uma coisa começa onde a outra termina - ou termina onde a outra começa. "Ende Neu" é uma canção do grupo, gravada em 1996, data do 16.º aniversário da banda. É cantada com uma pistola de compressor de ar colocada perto da boca, com uma percussão de canudos plásticos ao fundo. O que eles fizeram de tão especial? Bem, só para citar uma: em 1993, lançaram o disco "Tabula Rasa", gravado durante a Guerra do Golfo, no qual incluem como música o barulho dos poços de petróleo queimando no Kuwait (incendiados pelos iraquianos). O método é complexo, mas o princípio é o da observação do mundo. Como na canção "The Garden", em que a frase dita aleatoriamente por uma visitante no Museu do Prado foi o mote para toda uma sequência de arranjos (com cordas, vibrafone, piano Fender Rhodes e baixo). Em relação à revolução pré-eletrônica do Kraftwerk (que veio bem antes), eles representam a adição de um comportamento mais cínico, menos ingênuo e também menos ligado ao ideário da ficção científica. O Neubauten é a cara de seu performático líder, o guitarrista, percussionista e mais um monte de coisas chamado Blixa Bargeld, também guitarrista do grupo do australiano Nick Cave, The Bad Seeds. Bargeld acaba de fazer uma performance-solo chamada "Rede/Speech" e transita por todas as áreas, do cinema à fotografia, da pintura ao vídeo. Com serialbathroomdummyrun (mostra de fotos exibida recentemente na galeria Sadie Cole, no Soho), ele apresentou uma série de fotografias de banheiros de hotéis, por onde Blixa tem passado ao redor do mundo, lugares "metaforicamente carregados", segundo diz. "Não se trata de uma obsessão, mas de um jogo em que eu sigo as regras", diz o cantor. "Você começa o jogo e descobre as regras gradativamente: eu não me importo se as fotos estão fora de foco
se estão em foco, se precisam de flash ou não", revela. Ele faz as fotos, as dispõe em ordem cronológica e depois põe os nomes dos hotéis em cima. Blixa Bargeld passou os últimos 20 anos recolhendo objetos e dando-lhes uma espécie de releitura pós-industrial. O objeto fala, parece querer nos dizer Bargeld. No palco, alterna momentos de explosão punk com sutilezas de cabaré, como se fosse um dissidente do Cabaret Voltaire, uma reencarnação de Tristan Tzara. No último single do Einsturzende Neubauten, "Total Eclipse of the Sun", ele tinha como projeto gravar o som minimalista do eclipse do sol de 11 de agosto, o último do milênio. "E tudo que eu realmente realmente realmente realmente realmente realmente realmente realmente quero é ver o eclipse total do sol", canta, no disco.
Seu estilo babélico pode ser conhecido em uma aula rápida na coletânea Einsturzende Neubauten (pelo selo Rough Trade Records, gravada entre 1994 e 1996). O Neubauten (que hoje inclui, além de Bargeld, Andrew Chudy, F.M. Einheit, Alex Hacke, Klaus Maeck e Boris Wilsdorf) apresenta misturas que às vezes lembram Laurie Anderson (caso de Stella Maris, embalada pela bela voz da cantora Meret Becker) às vezes Kraftwerk (Installation n.º 1) e noutras não lembram nada conhecido (como a dadaísta Nnnaaammmm). Maestros da cacofonia - Do grupo inicial, só sobrou Bargeld na banda, o que leva a crer que ele é a própria banda. Em abril de 1980, o Neubauten tinha também o nova-iorquino N.U. Unruh (percussão industrial e baixo) e os alemães Beate Bartel e Gudrun Gut. Mas F.M. Einheit, alemão de Dortmund que entrou no grupo no mesmo ano em que saíram Bartel e Gut, é hoje tão importante no conceito do grupo quanto Bargeld. Quando não está no palco com o Neubauten, mantém em Berlim uma experiência de teatro musical de vanguarda chamada Stein.
As palavras-chaves para definir o Neubauten têm sido muitas. "Dramaturgia da repetição". Ou então "rock alternativo passadista". Ou ainda "maestros da cacofonia". Tudo pode estar correto, dependendo do ponto de vista. Passeando por referências que vão da música de Arvo P„art à filosofia efêmera de Virilio e Baudrillard, ao teatro de Artaud e às visões de Lewis Carroll, entre outras, o grupo é tudo, menos uma banda de rock convencional. Memórias - Bargeld parece que chega meio chateado ao Brasil. No dia 22 de agosto, roubaram seu notebook em Colônia, na Alemanha, com as anotações para o que poderia ser o próximo disco do Neubauten. Mas também é parte do trabalho que elabora ao redor do mundo, um projeto global chamado "The Execution of Precious Memories", iniciado no Instituto Goethe de Yaoundé, na República de Camarões.
Nesse trabalho work in progress, ele gasta um tempo com pesquisas para incluir dados culturais do lugar onde vai realizá-lo. Ele lembra que tudo começou em 1993, quando teve um encontro com o poeta polonês Zibgniew Karkowski e com a idéia de colocar em cena a "memória" de uma determinada população. "É óbvio que, para um ocidental, a idéia de memória da natureza é diferente da de um africano", ele diz. É por isso que toda a performance parte de um questionário previamente aplicado à população.
Apesar da longa folha corrida, Blixa Bargeld só tem 40 anos. É parceiro de Nick Cave desde 1984, com quem acaba de fazer o "Meltdown Festival", no Royal Festival Hall de Londres. Seus trabalhos extra-palco têm sido expostos nas melhores salas de exibição do mundo. Como ator, trabalhou em "Die Totale Therapie", filme de Christian Frosch (com Ursula Orfner, Sophie Rois e Lars Rudolph); foi ator e autor da trilha no filme "Dumpfe Stimmen", baseado em texto de Bernard Marie Kolts e dirigido por Gert Hof; foi ainda co-autor, ator e compositor em "Das Auge des Taifun", videofilme dirigido por Paulus Manker; e também foi ator em "Bad Blood for the Vampire", de Lysanne Tibodo.
A turnê brasileira do Einsturzende Neubauten, uma das visitas mais importantes no cenário musical desde a temporada do Kraftwerk, no ano passado, inclui passagens pelo Rio (sábado, no Cine Íris) e por Porto Alegre (dia 19, no Bar Opinião). Depois, eles vão para o México. Serviço - "Einsturzende Neubauten". Amanhã, às 20 horas. De R$ 2,00 a R$ 5,00. Sesc Belenzinho. Avenida álvaro Ramos, 991, tel. 6096-8143

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