Grazi, ligada na globalização
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de fevereiro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
De tradicional família londrinense, Graziela Diez embarcou ontem para o exterior. Não, não se trata de uma temporada de compras em Nova York e muito menos de uma conexão com a Europa para cumprir o périplo dos grandes desfiles. Graduada em Desenho Industrial pela Unopar, Grazi, que após uma viagem à Turquia descobriu a fotografia, prepara suas lentes para uma aventura: clicar os melhores ângulos do Butão, pequeno reino encravado no Himalaia, entre a China e a Índia, conhecido pelo fato de manter uma das sociedades mais fechadas do mundo.
O sonho de ser fotógrafa profissional com pós-graduação na área se transforma em realidade em julho. Antes disso, a preparação será intensa e terá Londres - cidade na qual já residiu no ano passado -, como reduto. ''Tenho trabalhos agendados, também'', afirma Grazi, que a partir desta semana atua como assistente de fotografia na equipe de Richard Davis. Em pauta, a campanha do Mc Donald's para a Europa, ilustrada por livros repletos de fotos de franquias na Escócia, Itália, França, Alemanha, entre outros países. A seguir, a íntegra da entrevista, feita antes da viagem:
Você é formada em Desenho Industrial. Como foi seu ''encontro'' com a fotografia?
Após me formar em Desenho Industrial, fui para a Turquia. Tinha participado de um concurso público do governo do Paraná e fui uma das 30 selecionadas para estagiar no exterior. Por lá, trabalhava em uma agência de congressos. Em um desses congressos, um fotógrafo faltou e meu chefe estava enlouquecido. Fui convidada e topei, afinal, desde criança gostei de fotografar. Meu chefe adorou o trabalho.
Como foi a experiência na Turquia? Usou a burka?
Residi na capital, Ancara, e em Istambul. Cheguei e, como não havia me preparado, tudo foi surpresa para mim: não utilizei a burka nas duas cidades. Só em viagens para o interior. Se chegasse de jeans e regata, por lá, seria um acontecimento (risos). Os banhos turcos, que acontecem todas às sextas-feiras, a culinária otomana, são outros dos aspectos que destaco.
E as experiências com o islamismo?
Mudei bastante minha cabeça. Antes, o que para mim era fanatismo hoje gera respeito e me trouxe muito conhecimento.
O fato de ser loura e bonita não te gerou problemas?
Com a abertura da economia da Rússia, muitas russas foram à Turquia para se prostituir. Para evitar ''confusões'' (risos), à noite evitava sair sem lenço na cabeça, pois fazia aula de turco até tarde.
De volta ao Brasil, a paixão pela fotografia falou mais alto?
Sim. Fui fazer uma pós-graduação em Fotografia pela UEL. Fiz a pós e conciliei, nesse meio tempo, com o trabalho para a coluna social.
Você foi fotógrafa da coluna social de Vanusa Macarini por mais de um ano. Como é clicar o lado mais belo da cidade? Tem alguma preferência, na arena da fotografia?
Adoro trabalhar sob pressão, gosto de ver o resultado no dia seguinte. O trabalho para o jornal foi uma experiência maravilhosa. Acho bem bacana, também, o fotojornalismo e a fotografia de moda.
No que se refere à moda, você prefere o ''jogo rápido'' ou às superproduções?
É legal trabalhar conceitos, tendências, marcas. Mas uma boa foto de moda não está relacionada ao tempo que ela demanda. Tudo depende da intenção, do que se quer passar.
No final de 2007 você transferiu residência para a Europa. Como foi a iniciativa?
Fui convidada a trabalhar no final de 2006, com um fotógrafo chinês, em Londres. Só pude ir no início do ano passado. Ao chegar lá, soube que a vaga estava preenchida. Então decidi ligar para uma crítica reconhecida internacionalmente, que me indicou o Eduardo Martino, fotógrafo brasileiro que reside em Londres. No momento, ele não estava contratando. Um mês depois, eu obtive retorno: comecei a trabalhar na mesma hora para ele, mesmo com pouca noção de estúdio.
Dos lugares que foi, quais te chamaram a atenção?
O social acabou ''me chamando'' (risos) e fui fotografar um casamento de um grande amigo, na Tunísia. Conheci o Deserto do Saara. Afora a Tunísia, conheci Portugal, Espanha, França, o interior da Inglaterra.
E dentre os trabalhos?
Uma coisa que achei bem bacana, que não temos no Brasil, é uma empresa chamada ''That Place On The Corner''. Trata-se de um café voltado a crianças, de recém-nascidos até os 6 anos de idade, com aulas de culinária, pintura, e atrações voltadas à família. O conceito é bacana porque a criança ''manda''. Assinei também a direção de fotografia para um comercial de TV. Foi um comercial que rodou nos aeroportos da Inglaterra e da Arábia Saudita de uma empresa de cosméticos chamada Bayan Lontra, das mais refinadas e caras do mundo. Daí veio o contato para meus futuros trabalhos.
Trata-se de sua tão sonhada ida ao Butão?
Sim. A idéia é de etno-fotografia, com foco principal voltado às mulheres. Conheci essa produtora e ela adorou a idéia. Gostaríamos de registrar a cultura do Butão agora, pois não se sabe até quando o país vai conseguir mantê-la intacta e fechada. Lá, as mulheres são reprimidas pela sociedade.
A pergunta típica: mas para o Butão? Por quê?
Aos 12 anos de idade, trabalhava em uma agência de viagens. Quanto mais diferente a cultura, mais me interessa. E desde então me interessei pelo Butão. Se me chamarem para uma tarde de compras em Nova York, eu fujo, não faço a linha ''turista comercial''.
A intenção é embarcar quando? Afinal, há os trâmites e se trata de um país monárquico, não?
Sim. Vamos entrar em contato com a embaixada e, a partir de janeiro, começar a estudar sobre o budismo, também, frequentando templos, para entrarmos como budistas, pois os católicos são perseguidos lá. Vamos aprender nepalês para nos misturamos à população, sem o olhar de turista, mas não perdendo o olhar diferente.
A estada será longa? Qual a intenção, com o material em mãos?
Sim, dependendo de como as coisas renderem, a intenção é ficar de três a seis meses. Pretendemos transformar o material em livro e em documentário.
Depois de tantas viagens e do livro lançado, quais serão seus planos?
Ainda estou ''sem chão'', pois ir para o Butão era meu maior objetivo e era tão distante. Hoje, que isso está prestes a se tornar uma realidade, posso dizer que gostaria de trabalhar em revista, com trabalhos mais elaborados, em outro timing. Não sei dizer se no Brasil ou no exterior.


