Gravadora Eldorado lança primeiros discos da série "História da Música Brasileira"
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 12 (AE) - A ausência de um projeto historiográfico consequente que mapeie a produção musical brasileira bloqueia não só o caminho para o descobrimento de obras-primas. Apaga também a memória de um povo já afetado por certa afasia que dificulta a criação no campo erudito. Felizmente, o historiador Ricardo Maranhão arranjou um bom parceiro, o flautista e maestro Ricardo Kanji, disposto, como ele, a enfrentar o desafio. Autores do projeto "História da Música Brasileira", coleção de 6 CDs e 15 vídeos, eles acabam de colocar no mercado os dois primeiros discos da série, distribuídos pela gravadora Eldorado.
Dedicados à música produzida no período colonial, os dois primeiros discos destacam a produção do padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), o mais importante compositor em atividade no Rio de Janeiro em sua época. De nítida inspiração haydniana, sua música, às vezes, foge do modelo clássico que a inspira para voar por conta própria. Nem todas as obras integrantes do repertório desses dois discos têm essa força, mas, evidentemente, são curiosas, inéditas e ousadíssimas em muitos casos (por exemplo, o de Marinículas, de autor desconhecido do século l8). Competência - Ousado também é o projeto, apesar do desequilíbrio entre a parte instrumental (excelente) e vocal (nem tanto). Como o repertório é incomum e desconhecido tanto para os ouvintes como para os intérpretes, prevalece o arbítrio. Não há gravações de referência de tais obras, muitas delas encontradas em antigas bibliotecas ou em estantes empoeiradas de velhas sacristias mineiras. Se os solistas vocais não cantam esse repertório por falta de interesse das gravadoras ou das salas de concerto, é lícito que uma ou outra falha de interpretação seja perdoada. De resto, os dois primeiros discos da série são provas irrefutáveis de competência musical e maturidade dos produtores.
Último projeto bancado pelo então ministro das Comunicações Sérgio Motta, morto em abril passado, o da série "História da Música Brasileira" foi assumido pela Telebrás, que investiu R$ 650 mil em pesquisas, contratação de músicos, gravações e filmagens (a cargo do cineasta Reinaldo Volpato). O orçamento foi revisto e deve chegar a R$ 900 mil. O historiador Ricardo Maranhão, diretor do Centro de Produções Editoriais e Culturais (Cepec), um dos idealizadores do projeto, está procurando novos patrocinadores dispostos a concluir a ambiciosa série sobre a evolução de nossa música erudita. História em casa - A Rádio e Televisão Cultura (RTC) começa a exibir os vídeos em março. Com narração do próprio Ricardo Kanji, fundador do mais popular grupo brasileiro erudito dos anos 70, o Musikantiga, a série começa com a música no Brasil do século 16 e chega a este século com a consolidação da música popular, passando pelo romantismo, o nacionalismo e o modernismo, momento em que a experiência vanguardista de Villa-Lobos vai se encontrar com a trilha popular de Pixinguinha no vídeo dirigido por Volpato. Dois outros compositores, o padre José Maurício e Carlos Gomes também ganham programas independentes na série.
Os dois primeiros discos da coleção serão reunidos num álbum, a ser lançado brevemente na França pelo selo K. 617, especializado em música barroca latino-americana. A informação é de Kanji, que acaba de voltar da Holanda, onde regeu o Stabat Mater de Pergolesi. Aqui, o maestro, que doou seu piano de época (John Broadwoody,1860) para as gravações, espera ansiosamente que a Alfândega libere o instrumento para a gravação do terceiro disco da coleção, dedicado à música do Império. "Nos dois primeiros discos tivemos de usar um piano moderno", conta.
A sorte de contar com um bom pianista (Naim Marun) e dois produtores musicais que também são instrumentistas (Everton Gloeden e Tadeu do Amaral) compensou a retenção do Broadwoody trazido da Holanda, mas o produtor Ricardo Maranhão não vai abrir mão de uma orquestra sinfônica no terceiro volume da série. Até o fim do semestre todos os discos terão sido lançados, segundo o historiador. Dos 15 vídeos, 10 já foram gravados e estão em fase de edição.


