Gratuidade de museus não garante público
No Museu de Arte de Londrina, segundo a diretora Sandra Jóia, a frequência mensal é de 1.500 a 2.000 visitantes, incluindo os grupos escolares. Assim, em um ano, o museu recebe menos de 5% da população local. Diretamente e a curto prazo, o vale-cultura não deve trazer mais público, já que a entrada sempre foi gratuita. Mas Sandra projeta que, ao criar o hábito de consumir cultura, esse benefício pode gerar, mais tarde, um aumento no número de visitantes. ''Uma coisa leva a outra. O vale é benéfico porque cria uma rede de consumo cultural, e contribui para que tenhamos no futuro cidadãos sensibilizados à arte e à cultura em geral'', acredita. A diretora ressalta, porém, que para tanto é essencial que haja fiscalização.
E, enquanto Londrina é repleta de atrações artístico-culturais gratuitas ou a preços acessíveis, cidades pequenas convivem com o inverso. Um morador de Rancho Alegre, a 60 km de Cornélio Procópio, por exemplo, vai encontrar dificuldades para gastar os R$ 600 anuais com cultura, a não ser que recorra à internet ou a cidades maiores.
Segundo um levantamento do projeto Paraná Cidade, da Secretaria de Estado da Cultura, apenas 42 cidades paranaenses (10,5%) têm cinema. Moradores dos outros 357 municípios, se quiserem usar o vale-cultura para ver um filme na telona, terão que se dirigir a outra cidade. O índice não é muito diferente da média nacional: segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 91% dos municípios brasileiros não tinham nenhuma sala de cinema em 2006. E, segundo dados do IBGE do mesmo ano, apenas 14% da população brasileira iam mensalmente ao cinema.
Vale lembrar ainda que a grande maioria dos museus existentes no Paraná tem entrada gratuita. São 177 museus distribuídos em 87 cidades (21,8% dos municípios), segundo dados do Cadastro Nacional de Museus. Só em Curitiba, são 50. E, de acordo com o IBGE, 96% da população brasileira não frequenta museus.
Embora 5 milhões de pessoas (metade da população do Estado) estejam concentradas nos 16 municípios com mais de 100 mil habitantes, na outra ponta, pelo menos 2,6 milhões distribuem-se em 329 cidades com no máximo 25 mil habitantes e praticamente nenhuma opção cultural.
Ao garantir, de certa forma, um público pagante, o novo vale pode ser uma boa oportunidade para se fomentar a cultura nessas localidades menores, onde os espetáculos dificilmente chegam. Mas também existe a possibilidade de os empresários, cientes da falta de opções, simplesmente deixarem de aderir à iniciativa. Seja como for, esse benefício só atingirá seu objetivo de democratizar a cultura se aplicado de forma integrada a outras iniciativas. (A.I.)





