Para quem viaja de carro a partir de Córdoba (Argentina) em direção a Mendoza (onde está o Parque Aconcagua, na Cordilheira dos Andes), uma boa dica é tomar o caminho que leva à Traslasierra, também conhecido como ‘‘Camino de Las Altas Cumbres’’. O ponto mais alto desta estrada está a 1.860 metros e a possibilidade de ver um condor é muito grande.
O vilarejo de Puente del Inca está localizado a 2.700 metros de altitude e em torno de 170 km de Mendoza. É o ponto de partida para aqueles que pretendem visitar o Aconcagua. São aproximadamente 30 apartamentos que são ocupados na sua grande maioria pelos ‘‘andinistas’’, ou seja, os ‘‘alpinistas’’ da Cordilheira. A Hosteria Puente del Inca possui um restaurante e ao fazer as refeições tem-se a impressão de estar no meio de um congresso internacional: escuta-se pelo menos 4 ou 5 línguas diferentes.
Foto: Renato MartinsUm belo caminho: Los Caracoles, que levam à CordilheiraNo vilarejo, existe uma pequena igreja de pedras que tem uma história incrível: em 1965 uma avalanche de neve destruiu completamente a sede do hotel que ficava à direita da igreja, distante no máximo 100 metros. A avalanche literalmente ‘‘pulou’’ a igrejinha mas não poupou as instalações nem os 15 hóspedes que estavam naquele momento no hotel, construído por ingleses no início do século embaixo da ponte natural de pedra escavada pelo Rio Mendoza, aproveitando as águas quentes que brotam das pedras.
A construção era destinada somente para os banhos termais, e ainda hoje é possível tirar proveito das termas quando o lugar não estiver cheio de turistas. Existe pelo menos uma banheira intacta na parte de baixo da construção onde a temperatura das águas se mantém a mesma o ano todo. Observando os detalhes da obra pode-se imaginar o quanto foi inovadora para a época - um luxo da engenharia de então. Atravessando os corredores, pode-se chegar embaixo da ponte de pedra que tem seu nome devido aos vestígios incas encontrados na região. Estas banheiras eram ligadas à sede através de túneis subterrâneos. As ruínas do que sobrou ainda podem ser visitadas.
Logo depois de Puente del Inca existe uma placa na estrada que indica o Monte Aconcagua e sua altitude: 6.962 m. Se o dia estiver claro, pode-se ver perfeitamente o topo coberto de neve. Já as montanhas que cercam o Aconcagua têm no máximo 5.800 metros de altitude.
Qualquer pessoa interessada em entrar no parque onde está o Aconcagua, quer seja para uma caminhada ou escalada, deverá obter as devidas autorizações nos portões do Parque General San Martin, que guardam o órgão responsável pela emissão dos ‘‘permisos’’. A burocracia acaba sendo útil pois Mendoza é uma cidade muito agradável que oferece inúmeras opções de passeios, compras, restaurantes e turismo de aventura. A cidade, fundada em 1561, fica ainda mais agitada no inverno quando começam chegar os turistas em busca das estações de esqui de Las Leàs, Los Penitentes e Vallecitos. Em tempo: o Parque G. San Martin abriga um câmpus universitário, zoológico, autódromo, estádio e mais de 700 espécies de árvores.
Logo na entrada do Parque Aconcagua, no posto de controle dos ‘‘guardaparques’’, já se pode ver o topo da montanha. O nome significa ‘‘Sentinela de Pedra’’ na língua aymará. O parque está localizado em uma área de 71.000 hectares e o Monte Aconcagua, do alto dos seus 6.962 metros, é a montanha mais alta das Américas. Todo ‘‘andinista’’ que entra no parque, quer seja para um trekking de 3 dias ou para uma expedição ao cume de 15 dias, deve apresentar uma permissão por escrito (adquirida em Mendoza).
Uma das atrações do lugar atualmente é a ponte onde foram filmadas algumas cenas do filme ‘‘Sete Anos no Tibet’’, com o astro Brad Pitt. A equipe de filmagem não conseguiu permissão das autoridades nepalesas e foi obrigado a encontrar um outro lugar - nos Andes - para filmar as cenas de montanha. Em troca da autorização dos guardaparques, a equipe construiu uma ponte nova para substituir a anterior que estava em péssimas condições. Para aparecer no filme, ela foi toda encapada e assim parecer antiga.
Confluência é o primeiro acampamento-base para aqueles que pretendem chegar ao topo e está localizado a 3.300 metros de altitude. Aclimatação é fundamental. O grande inimigo dos ‘‘andinistas’’ é a altitude, o malfalado MAM - Mal de Alta Montanha. A partir deste ponto pode-se seguir para Plaza Francia e ter uma visão da parede sul, extremamente técnica, ou então seguir para Plaza de Mulas e ter acesso a rota norte. Esta última é a mais fácil uma vez que pode-se chegar ao cume caminhando.
O universo de pessoas que adentram o Parque Aconcagua é muito grande: são nacionalidades, idades e objetivos dos mais diversos. Existem aqueles que buscam um contato direto com a natureza através de caminhadas. Outros, como principalmente os europeus acostumados com alta montanha, vêm de longe com o único objetivo de chegar ao topo.
A caminhada da entrada do parque até Confluencia leva em torno de 5 horas. A trilha está bem batida e não representa maiores perigos. A partir de Confluencia a coisa muda de figura: as subidas são mais íngremes e cheias de pedras. Um trekking até Confluencia é mais do que suficiente para entrar em contato com o Aconcagua, apesar de não poder vê-lo por inteiro deste acampamento. As rochas da região datam de mais de 300 milhões de anos, são sedimentos marinhos ou ainda rochas vulcânicas do período terciário. Restos de cultura inca também podem ser vistos no local.
O vilarejo de Las Cuevas é a última parada antes da fronteira com o Chile. É tão pequeno e pitoresco quanto Puente del Inca. No local existe um Albergue da Juventude que já é atrativo somente pela altitude em que está: 3.151 metros. Para ter uma visão panorâmica da área, deve-se subir por uma estrada de terra até o topo de um morro onde existe uma imagem de 7 metros de altura chamada Cristo Redentor.
Depois do Túnel Internacional Cristo Redentor, uma sequência de 31 curvas fechadas, já em território chileno, pode deixar qualquer motorista de cabelo em pé. São 10 km para ser vencidos e o desnível é de mais de 1.500 metros. A travessia da Cordilheira dos Andes no inverno, especialmente este trecho, depende literalmente da permissão de Deus. Não é difícil o ‘‘paso’’ ser fechado por uma semana devido a nevascas. Dentro do túnel ficamos a mais de 3.000 metros de altitude.Foto: Renato MartinsRuínas, em Puente del Inca: conservam ainda restos da históriaSilvana Leão

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