Grandes agências se rendem ao ecoturismo
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terça-feira, 19 de outubro de 2004
Daniel Hessel Teich<br> Agência Estado 
São Paulo - As grandes agências de turismo descobriram um novo filão para explorar. Trata-se do ecoturismo, aquele tipo de passeio onde o turista viaja para lugares paradisíacos, se hospeda em hotéis simples e recebe noções básicas de preservação ambiental e de responsabilidade social. Empresas especializadas em turismo de grande escala, como CVC e TAM Viagens, já oferecem excursões que parecem ter saído do catálogo de uma agência de viagens para mochileiros.
A CVC, que embarcou 500 mil passageiros no primeiro semestre, começará a vender nas próximas semanas um pacote cujas atrações são mergulhos em lagos cristalinos, exploração de cavernas e uma visita a assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em Mato Grosso. O preço: R$ 2,5 mil por pessoa.
A TAM Viagens, um filhote da companhia aérea, lançou há dois meses um roteiro para se observar pegadas de dinossauros no sertão paraibano. Outra opção é uma viagem em jipes com tração nas quatro rodas pelas dunas e praias desertas do Ceará e Rio Grande do Norte. Os pacotes custam cerca de R$ 3 mil, mais que uma semana em um resort de luxo da Costa do Sauípe.
Nos últimos anos, o turismo ecológico tem se firmado como um grande negócio. Os dados no Brasil ainda são precários, mas a Organização Mundial do Turismo estima que o ecoturismo cresça a um ritmo de 20% ao ano, ante 7% do turismo convencional. As viagens ecológicas são a grande aposta para o verão brasileiro, que promete ser a melhor temporada de férias dos últimos três anos.
''As pessoas querem fazer viagens diferentes, voltar com uma boa história para contar'', diz Tasso Gadzanis, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav).
Pacotes para lugares remotos e paradisíacos não são novidade no Brasil. As primeiras empresas especializadas nesse ramo surgiram há 20 anos. Foram responsáveis pelas primeiras viagens a lugares como Fernando de Noronha, Jericoacoara, Bonito, Chapada Diamantina e, mais recentemente, Itacaré, Lençóis Maranhenses e o arquipélago de Abrolhos. Tinham uma estrutura pequena e um grupo limitado de clientes jovens aventureiros ou turistas endinheirados em busca de emoções exóticas. Com as grandes, isso começa a mudar.
Do total de viagens vendidas pela CVC, a área de ecoturismo responde por 15%. Desde o ano passado, quando foi criada, a divisão de turismo ecológico cresceu 40%. ''Estamos ainda no começo, mas é um mercado muito promissor'', diz Luciano Castanho, gerente de setor.
A empresa também tem aproveitado a estrutura de pacotes tradicionais, como os para a Serra Gaúcha e Foz do Iguaçu, para oferecer viagens com jeito mais aventureiro. Incluiu esportes de aventura, cavalgadas e passeios em parques nacionais. A empresa tem 31 roteiros ecológicos e pacotes para sete hotéis de selva na Amazônia.
Para a TAM Viagens, a área de ecoturismo é estratégica. ''O apelo é muito forte tanto no mercado interno como no exterior'', diz o diretor-executivo Sylvio Ferraz. No ano passado, a empresa lançou a Eco TAM, uma divisão responsável pelos os pacotes de viagens para paraísos ambientais. Atualmente, a Eco TAM responde por 20% dos pacotes vendidos. Em um ano, a divisão cresceu 30%.
Com a entrada das empresas de turismo de massa, as viagens ecológicas prometem passa por uma revolução. ''Elas fretam aviões, têm uma rede enorme de pontos-de-venda e uma política de preços extremamente agressiva'', avalia Israel Waligora, presidente do Bureau Brasil de Ecoturismo, ligado à Embratur e dono da agência Ambiental, uma das mais antigas do mercado. ''Isso pode ser benéfico para a popularização dessas viagens, mas também pode trazer especulação imobiliária e degradação ambiental''.
As grandes agências se defendem. Dizem que tomam todos os cuidados para que isso não aconteça, com roteiros cuidadosamente montados, envolvimento da população local e grupos limitados de visitantes. E invocam o velho lema dos mochileiros de que conhecer é o primeiro passo para se preservar.


