O alcance da voz do taiko, o grande tambor japonês, com o timbre mítico das lendas, determinava, na antiguidade, até onde as casas poderiam ser erguidas. Vigor e poder de batidas transportados nas mãos do tempo, encarregado de repercutir a arte entre jovens londrinenses do grupo Ishindaiko, primeiro estrangeiro em todo o mundo a participar como concorrente do 9º Junior Taiko Contest em Kyoto, no Japão, campeonato promovido pela Nippon Taiko Foundation.
Campeão brasileiro de taiko na categoria júnior e vice-campeão adulto do 3º Campeonato Brasileiro de Taiko, o maior evento brasileiro da arte, o Ishindaiko embarca para o Japão no próximo dia 20. Eles se apresentam no dia 25 em Kyoto.
Com um elenco total de 25 tocadores, o grupo viajará com 13 participantes, que ainda se apresentarão e realizarão workshops para brasileiros nas cidades de Gifu e Shiga.
Formado há três anos, o Ishindaiko, nome que numa tradução livre significa ''a união através do taiko'', se preparou para a apresentação no Japão, com o professor Yoichi Watanabe, do grupo japonês Amanojaku.
Considerado um mestre na modalidade num país com 200 mil praticantes de taiko, Watanabe compôs a música ''Kenkayatai'', uma batalha entre os tambores, tornando cativa a emoção do público, que se tornará livre para sentir toda a harmonia e energia das batidas, que arrastam ao palco uma lendária tradição.
O taiko moderno, mais um dos fenômenos culturais do pós-guerra, iniciado por Daihachi Oguchi, baterista de jazz, que reuniu músicos em torno do tradicional instrumento, é diferente do original em que a mais antiga prova de sua existência aparece representada numa figura de argila de um batedor do século V ou VI. A sonoridade dos tambores alcançava longas distâncias, comandando a marcha de guerreiros japoneses.
Como no passado, a arte ainda testemunha encontros com o sagrado nos templos budistas e xintoístas, mas é no coração dos jovens adeptos, que as batidas ganharam um novo compasso, misturando conhecimentos musicais e filosóficos.
''Um dos principais objetivos do grupo londrinense é a preservação da cultura japonesa, principalmente entre os jovens que, geralmente, estão se afastando da arte e história dos ancestrais. A partir do taiko pretendemos despertar esse interesse'', afirma o coordenador do Ishindaiko, Silvio Iwao Muraguchi.
Com os pés calçados com o tabi, meia tradicional japonesa, os tocadores de taiko (taikouchi) empreendem uma peregrinação através da música e do movimento.
''O que mais atrai os jovens no taiko é que não é somente uma arte. É música, esporte e confraternização. O compositor, como é o meu caso, precisa ter habilidade para conseguir criar uma música que se encaixe nos movimentos'', destaca Lucas Muragushi, 16 anos, que, juntamente com a irmã Isabela Muragushi, 15 anos, integra o elenco, que reúne também jovens que não são da colônia nipo-brasileira, como a estudante Lua Lobo, 17 anos.
A estudante descobriu o taiko há dois anos, através de uma amiga. Para ela, a força necessária para dominar os tambores, que são de vários tamanhos, formas e classificados de acordo com o número de faces, é um detalhe, que não conta muito.''Quando a gente conhece o mundo do taiko, passa a entrar em contato com muita gente, a viajar e conhecer outros lugares'', ressalta Lua.
Já Lucas espera que o Ishindaiko fique entre os 15 primeiros colocados na competição japonesa. Afinal, o grupo estará enfrentando os donos da festa. ''Passei no vestibular da Escola Superior de Propaganda e Marketing, mas desisti, preferindo ficar mais seis meses em Londrina para continuar ensaiando com o grupo'', conta Lucas.
Antes de embarcar para o Japão, o Ishindaiko se apresentará na próxima quinta-feira - Dia Internacional da Mulher - no Tomate Seco Café Teatro, esquentando os tambores para enfrentar os samurais do taiko.

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