Grande Sertão: Veredas
GRANDE SERTÃO: VEREDAS
Minha auto-reflexão-irracional
João Guimarães Rosa viveu os primeiros dez anos em Cordisburgo, Minas Gerais, onde nasceu a 27 de julho de 1908.
Uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim sim, de muita importância. Além disso, em Minas Gerais; sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo. Cordisburgo. Não acha que soa como algo muito distante?, diria Guimarães Rosa em conversa com o alemão Gunter Lorenz, em 1965, durante o Congresso de Escritores Latino-Americanos, realizado em Gênova.(1)
Aos dez anos foi levado pelo avô e padrinho para Belo Horizonte. Em 1925 entra para a escola de medicina, escreve contos, ganha prêmios. Formado em 1930, inicia carreira de médico no ano seguinte em Itaguara, em Minas. Em 1933 se alista na Força Pública como oficial-médico do 9º batalhão de Infantaria, aquartelado em Barbacena.
Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte...(1)
Inicia em 1934 carreira diplomática. Em 1936, ganha prêmio da Academia com um livro de poemas, Magma. Em 1937, escreve os contos de Sagarana, que, publicado em 1946, significava uma renúncia à poesia e o retorno à saga, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. (1)
Nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo, em 1938, teve oportunidade de provocar Hitler fora das normas da diplomacia e trabalha para arrebatar judeus das garras da Gestapo. Com a ruptura Brasil-Alemanha em 1942, Guimarães Rosa é enviado para Bogotá como secretário de embaixada. Com o fim da Guerra, é nomeado chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura e vai para Paris na delegação enviada à Conferência de Paz.
Em 1948 vai a Bogotá para a IX Conferência Pan-americana e volta a Paris como primeiro secretário e conselheiro de embaixada. Volta ao Brasil em 1951, outra vez no gabinete do ministro João Neves.
O ano de 1956 é pródigo. Publica Corpo de Baile em janeiro e Grande Sertão: Veredas, em maio. Pelo último recebe os prêmios Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo; e Paula Brito, do município do Rio de Janeiro.
Eu diria que Grande Sertão foi para mim o término de um desenvolvimento e, ao mesmo tempo, algo que um dia, espero, levar-me-á à meta final. É (um romance biográfico), desde que você não considere uma autobiografia como algo excessivamente lógico. É uma autobiografia irracional, ou melhor, minha auto-reflexão-irracional... (1)
Em 1961 é premiado pelo conjunto da obra pela Academia. Sagarana é editado em Portugal; e Corpo de Baile na França, Em 1962 publica Primeiras Estórias e assume a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamarati.
É eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963. Em 1967 publica Tutaméia. Morre vítima de enfarte em novembro, três dias após a posse na Academia. Dois livros póstumos são publicados em 1969: Estas Estórias e Ave, Palavra.
(MCG)
(1) ENTREVISTA a Gunter W. Lorenz; Diálogo com Guimarães Rosa, publicada em Diálogo com a América Latina. São Paulo, Pedagógica e Universitária, 1973. Republicação em Ficção Completa, volumes I e II. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1994.
(2) ESTAS ESTÓRIAS. João Guimarães Rosa; 1ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1969.





