GRANDE ESTILO, BOM PÚBLICO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de julho de 2000
Elisa Marilia Carneiro De Curitiba 
Cerca de quatro mil pessoas assistiram, anteontem à noite, à abertura do 18º Festival de Dança de Joinville. Em cena, toda a expressividade dos bailarinos da Cia. Gulbenkian
Três coreografias diferentes abriram o 18º Festival de Dança de Joinville, anteontem à noite, no Centreventos Caus Hansen. A expressividade, técnica e criatividade foram impecáveis em todas as danças, que mostraram uma racionalidade rígida bem ao gosto dos coreógrafos contemporâneos.
Mas o Festival não é só dança. A abertura foi um show do cantor Jeff Keller, de Nova York. Ele entrou mascarado como o Fantasma da Ópera e animou a platéia cantando duas vezes o Hino do Festival. Clássicos da música americana, aqueles com que Frank Sinatra provocava delírios, foram também motivos de gritos e assobios do público jovem a grande maioria estudantes de dança. Nos intervalos a moçada corria para a Feira da Sapatilha com mais de 50 estandes no térreo do Centreventos.
A primeira coreografia de Jiri Kylián executada pela Cia de Dança da Fundação Gulbenkian, uma das mais importantes companhias de dança de Portugal, foi Sete Danças, composta sobre a música Danças Alemãs, de Mozart. Minimalista, com movimentos de chão e alguns efeitos de cena, os bailarinos interpretaram com primor, a força e a malícia do compositor alemão, que ficou marcado pelo período histórico de grandes agitações sociais, guerras e revoluções.
Com gestual próximo da mímica, a coreografia Stamping Ground é inspirada nas danças aborígenes das tribos australianas. Os aborígenes têm na dança a sua maior expressividade e fazem dela a coisa mais importante da vida, impressionado com isso, Jiri, quando esteve em companhia dos nativos e foi convidado a participar das festas sagradas, resolveu trazer a história deste povo para a dança e mostrá-la ao mundo.
Desta vez a coreografia é aérea e os oito minutos iniciais deveriam ser executados em absoluto silêncio, não fosse a impaciência do público jovem. Ritualista, os únicos sons são produzidos pelas batidas das mãos nos corpos. Stamping Ground traz para a dança a amplitude do deserto, a destreza para a sobrevivência. Ventos, aves e insetos são interpretados pelos movimentos das mãos, pernas, corpos e cabeças dos bailarinos, em atitudes de expansão e reconhimento. Em seguida, tambores vibrantes e outros instrumentos de percussão reproduzem a angulosidade da coreografia, de um povo marginalizado e discriminado, em sua própria terra.
O encerramento da noite foi bem brasileiro. Com a coreografia Terra Nova, de Rodrigo Pederneras, fundador do Grupo Corpo, de Belo Horizonte e convidado especial do Gulbenkian, o público assistiu a uma excepcional apresentação de chorinhos, músicas afro-brasileiras e valsas. As composições de Naná Vasconcelos e Sivuca eram executadas com palmas, assobios, violão e gaita. Os bailarinos saíram da rudeza gestual e entraram em êxtase no romantismo e leveza brasileiros. A perfeição da sincronicidade dava a impressão de que a música saía dos corpos em movimento cada instrumento era regido por uma parte do corpo.
As três coreografias optaram pelo figurino minimalista, sem cor apenas branco e preto e sem cenário. O Centreventos estava lotado com cerca de quatro mil pessoas. E além das coregrafias, houve um intervalo para que o coreógrafo Jiri Killián deixasse a marca de seus pés numa lajota da calçada da fama.
A jornalista Elisa Marilia Carneiro viajou a convite da organização do Festival de Dança de Joinville


