Arquivo FolhaGlauco Solter: acostumado a tocar em festivais internacionais, ele elogia a riqueza de ritmos da música brasileiraUma das grandes revelações da música instrumental brasileira é o contrabaixista Glauco Solter. Sua apresentação no Heineken Concert recebeu altos elogios da crítica. Ele acaba de ganhar uma bolsa de estudos para os Estados Unidos pelo concurso ‘‘Virtuose’’ do Ministério da Educação e Cultura. Mas antes faz uma turnê por cinco países da Europa se apresenta em Montreux e vai lançar por lá o seu novo CD. Glauco Solter, de Cascavel, criado em Curitiba faz um som bem brasileiro misturado com jazz. Hoje ele se apresenta na Água Doce Cachaçaria, em Maringá, onde também vai tocar uns blues só para matar a saudade.
Glauco Solter começou a tocar baixo, ‘‘meio por acaso’’, aos 16 anos. Hoje, com 28, está sempre aperfeiçoando sua técnica. Ele começou seus estudos com Yuri Ferreira que hoje é considerado o melhor baixista de Portugal. ‘‘Achava guitarra meio complicado porque tinha que ficar juntando as cordas para fazer um acorde. Baixo era mais simples e direto. Ferreira viajou mas deixou um monte de partituras e métodos e eu que nem sabia tocar violão fiquei estudando muito e peguei gosto.’’
Solter se juntou a alguns amigos (entre eles o compositor Luciano Rosa) e formaram uma banda Arte & Manhã que tocava rock, reggae e MPB. ‘‘Nessa época o rock brasileiro tinha uma projeção maior. Era a época do Ultraje a Rigor, Barão Vermelho, mas a gente também curtia Caetano Veloso. Este foi o nosso primeiro contato com música brasileira’’, lembra Solter que nunca mais parou de tocar profissionalmente. ‘‘Em 88 decidi parar de tocar música comercial e passei a tocar música instrumental para valer.’’ Nessa época formou a banda ‘‘Sotaque’’ com Paulinho Branco, Mario Conde e Endrigo Bettega. Tocava na banda com o guitarrista Polaco, e com o baterista Belmiro Patto, que hoje mora em Maringá.
No show desta noite Solter volta a tocar com Bettega e Conde. ‘‘É uma celebração tocar com estes dois amigos. Vamos mostrar parte do nosso novo CD, um pouco do primeiro, e alguns blues para matarmos a saudade’’, adianta o baixista.
Solter passou algum tempo em São Paulo tocando com Duda Neves, Mané Silveira e trabalhando com o baixista Celso Pixinga, ‘‘uma espécie de padrinho’’. Sua primeira viagem para a Europa foi com o guitarrista Polaco. ‘‘Foi uma crise de identidade não sabia se ia continuar tocando. Nem levei instrumento. Estava meio perdidão. Tanto que não deu certo a viagem fiquei só dois meses’’, conta. Mas na volta a fome de tocar foi tanta que ele acabou trabalhando com nove bandas ao mesmo tempo. ‘‘Voltei a mil. Era tanto compromisso que sempre acabava furando com alguém’’, lembra. Uma destas bandas era a de João Lopes autor de ‘‘Bicho do Paranᒒ, com quem Solter viajou para a Europa tocando no Festival de Montreux.
Em 91 começou a produção do seu primeiro CD ‘‘Glauco Solter’’ com composições suas, lançado em 93. Gravou um outro CD com a banda Tocaia pela gravadora portuguesa no Brasil Movie Play há quase três anos, mas ele ainda não foi lançado. ‘‘É uma grande sacanagem. Assinamos contrato com eles achando que faríamos um lançamento de âmbito nacional e até agora eles nunca lançaram a gente. Temos contrato assinado mas a banda ficou tão desestimulada que nem quer mais correr atrás do prejuízo. E os caras nunca atendem a gente. Foi um balde de água gelada’’, diz o músico.
Ele vai passar quatro meses estudando na Berkelee College of Music em Boston como bolsista. Ele é um dos 38 artistas que venceram o concurso Virtuose do MinC. ‘‘É um estímulo para artistas que não estão exatamente começando a carreira mas que ainda não estão consagrados e que têm necessidade de aprimorar seus conhecimentos’’, define o músico.
Nas viagens que fez a Europa Glauco Solter arranjou alguns amigos que estão facilitando suas apresentações, uma delas no dia 4 de Julho, no Festival Off de Jazz de Montreux, na Suíça. É um evento paralelo que acontece ao ar livre às margens do lago do lado de fora do grande auditório onde acontecem os shows de grandes estrelas internacionais. As outras apresentações serão na Bélgica, Itália, Alemanha e Portugal. ‘‘É uma experiência muito engrandecedora em todos os sentidos poder tocar em lugares diferentes para pessoas de outras culturas. E desta vez estarei mostrando o meu trabalho como instrumentista nas minhas composições. É uma conquista e uma tentativa de ampliar o mercado. É uma semente para no futuro poder fazer algumas turnês’’, imagina.
Inspirado nos seus ídolos Jaco Pastorius, Nico Assumpção, Luiz e Arthur Maia, Sizão Machado, o som de Glauco Solter recebe ainda influências de Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Sivuca. Ele define suas composições como música instrumental brasileira que faz uma mistura de ritmos brasileiros com conceitos e a liberdade do jazz onde cada um dos músicos mostra um pouco do que é. Ele explora os ritmos brasileiros como baião, samba, marcha, choro, samba-partida e até valsa. ‘‘A música instrumental está carente e os brasileiros são muito ricos, podem misturar ritmos como afoxés, maracatu, são coisas gostosas de tocar. O nosso produto é exótico e além de bonito vende lá fora. Mas não toco por isso não. Adoro a música brasileira e quero levar essa bandeira para todos os lugares, mostrando o nosso suingue.’’

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