Gramado supreende e aponta filme português como vencedor
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sábado, 14 de agosto de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
Gramado, RS, 15 (AE) - "À Sombra dos Abutres", do português Leonel Vieira, surpreendeu todos e foi escolhido grande vencedor do 27º Festival de Cinema de Gramado. O bem narrado thriller político, que conta uma história de perseguição e morte no tempo do salazarismo, levou também os Kikitos de ator (Diogo Infante) e fotografia (Acácio de Almeida).
Com uma fieira de prêmios, sai também consagrado o espanhol "Os Amantes do Círculo Polar", com os troféus de direção (Julio Medem), roteiro (Medem), música (Alberto Iglesias), júri popular para filme latino e prêmio da crítica. Os brasileiros participantes tiveram de se contentar com um Prêmio Especial do Júri para o documentário "Santo Forte", de Eduardo Coutinho, duas estatuetas para "Por trás do Pano", de Luiz Villaça (atriz, com Denise Fraga, e júri popular para filme brasileiro), e montagem para "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos", de Marcelo Masagão.
O que dizer dessa premiação, a não ser que é evidente a sua inconsistência? "À Sombra dos Abutres" é mesmo um belo filme, de construção dramática sólida e digno de todos os elogios. O estranho é que o igualmente interessante "Os Amantes do Círculo Polar" fosse acumulando prêmio sobre prêmio e perdesse justamente o principal. Como se as suas partes fossem boas, mas a soma delas nem tanto. Além disso, o júri perdeu a oportunidade histórica de consagrar o radical "Santo Forte", de Eduardo Coutinho. Claro, pode-se gostar mais ou menos do cinema documental. O fato é que a premiação de Coutinho seria, pelo menos, mais oportuna e estimulante. O diretor oferece um retrato profundo (e portanto incômodo) da sociedade brasileira, pelo viés da religiosidade. Talvez o fato de perturbar a consciência tranquila das pessoas tenha pesado contra ele.
Não é segredo para ninguém que os festivais brasileiros se vêm acomodando a um perfil conservador. Brasília, no ano passado, tinha duas opções de radicalidade - "O Viajante", de Paulo César Saraceni, ou "Tudo É Brasil", de Rogério Sganzerla - e optou pelo correto Amor & Cia, de Helvécio Ratton. Agora Gramado repete essa tendência ao centralismo.
Podia ter apostado as fichas na invenção formal de "Os Amantes do Círculo Polar" ou na contundência despojada de "Santo Forte", para não falar de um filme sem concessões como o cubano "La Vida Es Silbar", totalmente ignorado. Resolveu ficar no meio do caminho. Sem querer fazer uma sociologia dos festivais de cinema, não parece gratuito, no Brasil de hoje, que eles também elejam a atitude conciliatória como ideal. Paciência
só resta esperar que a História faça seu trabalho e convença as pessoas de que o alto do muro talvez não seja o melhor lugar para passar a vida.
Se a premiação de longas foi apenas tímida, a de curtas em 35 milímetros flertou com o irresponsável. Alguns dos melhores concorrentes, como "A Pessoa É para o Que Nasce", foram esquecidos em favor do apenas razoável "E no meio Passa um Trem", da dupla Fernando Meirelles e Nando Olival. Pior fizeram com o cinema de animação, ao dividir o prêmio entre todos os concorrentes do gênero. Para não desagradar a ninguém, aboliu-se a noção de competição. Seria como um campeonato de futebol em que todos fossem proclamados vencedores pela decisão de algum burocrata. É chato, mas, em mostras competitivas, quando todo mundo ganha, todo mundo perde. Demagogia não leva a lugar nenhum.


