Gramado reverencia Walmor Chagas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Gramado, especial para a Folha2 
Foi uma bela homenagem, esta que o 36º Festival de Cinema de Gramado prestou ao veterano Walmor Chagas. O Troféu Oscarito, que desde sua criação, há 20 anos, vem distinguindo o trabalho artístico de personalidades e entidades culturais do País, reconheceu o brilho da carreira de um dos mais sólidos atores de palco e tela. Em brilhante síntese de agradecimento, o homenageado reviveu sua trajetória, em que o teatro sempre ocupou mais espaço de criação do que o cinema, embora Chagas tenha confessado seu fascínio pela carreira na frente das câmeras. Como observou o mestre-de-cerimônias Paulo Betti, uma carreira que contaria com muito mais títulos não fossem as inconstâncias do cinema brasileiro.
E depois de uma forte chuva, o frio já temperado pelo sol devolveu cores e humores ao público festivaleiro. Foi neste clima que os filmes da competição desfilaram na tela do Palácio dos Festivais, precedidos pelos primeiros quatro curtas-metragens do sempre interessante concurso oficial da categoria - hoje será exibido ''Booker Pittman'', do londrinense Rodrigo Grota, com a presença da cantora Eliana Pittman, filha do jazzista biografado.
Entre os longas, o segundo estrangeiro veio de Cabo Verde. ''Mindelo - Traz'do Horizonte'' é um documentário sobre a vida contemporânea na cidade-porto da ilha situada no Atlântico, próxima à costa africana. O filme não esconde a influência diretamente assimilada de ''Suíte Havana'', o inesquecível documentário realizado por Fernando Pérez em 2004 e também exibido em Gramado. Mas está muito longe deste belíssimo poema sem diálogos.
A coleção de imagens de ''Mindelo'' está mais para cartões-postais, sem uma necessária e coerente unidade, do que para uma reflexão sobre o sentido da vida das pessoas do lugar, sobre o valor das pequenas coisas preguiçosas do dia-a-dia de uma comunidade que, aliás, se parece em muitos aspectos com aquela de algumas partes do Brasil. A Bahia, por exemplo.
Em ''Netto e o Domador de Cavalos'', o escritor, roteirista e cineasta Tabajara Ruas retomou o general Netto, personagem épico-mítico que há alguns anos andou por Gramado no longa-metragem ''Netto Perde Sua Alma''. Tabajara Ruas é um diretor da terra sempre preocupado com a cultura gaúcha sem ser gauchesco ou cetegista (de Centro de Tradições Gaúchas). Se o filme anterior revelava qualidades na tentativa de construir uma identidade, um mapeamento da memória de guerras e guerreiros do estado, agora neste ''Domador de Cavalos'' os resultados foram ainda melhores.
''Ficção completamente livre'', como disse Tabajara Ruas durante o debate, o filme reconta a lenda do Negrinho do Pastoreio, ou melhor, se apropria dela para construir um bom pedaço da alma guerreira, mitológica e ao mesmo tempo poética do Rio Grande do Sul. Cinéfilo aplicado, Ruas fez um filme homenageando dois dos maiores mestres do cinema: John Ford e Luchino Visconti.
São evidentemente fordianos alguns temas e subtemas do argumento, além, é claro, da coreografia e do desenho do western que o filme utiliza em não poucas vezes, como provém de Visconti o sentido de tragédia familiar que acompanha uma série de personagens. Ao lado de ''Nome Próprio'', este ''Netto e o Domador de Cavalos'' surge com qualidades que podem levar a premiações.


