Quem veio esperando barulhentas mudanças se decepcionou. A noite de abertura do 29º Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino, foi muito discreta, e havia mais fotógrafos, luzes e câmeras de tevê do que vips na passarela. Pouca gente famosa. A exceção mais notória foi o ator global Fábio Assumpção, chamado ao palco (pelo mestre de cerimonias José de Abreu) como ‘‘os olhos mais lindos da tevê brasileira’’. A todo momento, os textos lidos por Abreu enfatizavam a mudança de feitio da mostra, destacando o retorno à valorização da produção nacional. A mostra de filmes de países sul-americanos e europeus de língua latina foi diplomaticamente citada, mas já tem gente apostando que é apenas questão de tempo, a extinção do segmento competitivo latino. É claro que vai depender principalmente do comportamento da cinematografia brasileira. E quanto à retomada da outrora badalada festa de abertura, ela de fato voltou mas restrita a poucos convidados.
Falecido algumas horas antes da sessão inaugural de Gramado, Jorge Amado recebeu a homenagem possível nas circunstâncias. Ainda assim, foi tocante o clipe com cenas de filmes brasileiros, especialmente ‘‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’’ ao som de ‘‘O Que Serᒒ, nas vozes de Chico Buarque e Milton Nascimento.
Dividindo a platéia com grandes claros, um público apenas médio assistiu ao primeiro programa do festival, dois curtas brasileiros e um longa espanhol. ‘‘A Canga’’, do paraibano Marcus Vilar, é uma exasperante tragédia em um único ato de 12 minutos. Nos confins do agreste estorricado pelo sol inclemente, um velho dono de lavoura seca obriga os filhos, a mulher e a nora grávida a arar a terra usando uma canga de boi. Apesar da força telúrica explorada por iluminação precisa de Walter Carvalho e do alcance universal quando estabelece insidiosas relações de poder, ‘‘A Canga’’ estaciona naquela infindável área dos bens intencionados.
Já o segundo curta, o melhor filme da noite, é um ‘‘causo’’ saído das entranhas culturais de Minas Gerais. Saboroso como um café tirado na hora e servido na varanda em canequinha de ágate, acompanhado por aquelas rosquinhas doces de trancinha, ‘‘Negócio Fechado’’ é de certa forma uma anedota, mas o diretor e roteirista Rodrigo Costa vai mais além quando conta a história da venda de um lote de novilhas. Quem vende é compadre de quem compra, e a prosa vai longe, sem pressa, com manhas e artimanhas, naquela relação de ‘‘relar’’, cada vez mais rara no mundo globalizado, como disse no debate o escritor mineiro Olavo Santana, autor do conto que deu origem ao filme.
‘‘Yoyes’’, o longa espanhol de Helena Taberna, é apenas correto na cinebiografia de uma ativista do grupo separatista basco ETA, assassinada pelos próprios companheiros.
Abrindo o segunda parte do programa de inauguração, o curta catarinense ‘‘Ilha’’ não oferece justificativas para figurar na seleção da categoria. Passável enquanto narrado em off, com belas imagens, o filme de Zeca Pires se perde de vez quando a dupla de personagens deste acerto de contas entre pai e filha, há muitos anos separados, se põe a dialogar. É lamentável o roteiro do escritor gaúcho Tabajara Ruas, aliás diretor do longa-metragem ‘‘Neto Perde Sua Alma’’, o único da terra a concorrer na mostra competitiva nacional.
E o primeiro longa-metragem brasileiro, fechando a discreta noite de estréia, não teve acolhida muito auspiciosa. Baseado no conto homônimo de Paulo Emilio Salles Gomes, ‘‘Duas Vezes com Helena’’ marca o retorno de Mauro Farias ao longa exatos dez anos depois de ‘‘Não Quero Falar Sobre Isso Agora’’, melhor filme em Gramado-91.
E o grande homenageado de ontem à noite com o Troféu Oscarito foi o ator e diretor Hugo Carvana, com uma história de êxitos muito ligada ao Festival de Gramado.

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