Gramado festeja Renato Aragão
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Carlos Eduardo Loureno Jorge<br> De Gramado, especial para a Folha2 
Dois momentos bem distintos, na sessão que abriu domingo à noite a semana de atrações do Festival de Gramado. Logo no início do programa, uma merecida celebração levou ao palco do Palácio dos Festivais o comediante brasileiro Renato Aragão, recordista brasileiro de público em todos os tempos - seus filmes com os Trapalhões levaram mais de 130 milhões de espectadores aos cinemas do País, um recorde hoje considerado impossível de superar.
Aos 72 anos, 43 deles dedicados a um cinema especificamente dirigido a uma faixa etária difícil de conquistar se não for seduzida pela vertente da animação, Aragão com certeza merece esta festa que a organização preparou para ele. Antes, no Centro de Eventos, o ator deu longa entrevista coletiva na qual qual lembrou sua trajetória cinematográfica inspirada em Oscarito, carreira que começou solo e em preto-e-branco em 1965, mais tarde incorporou o trio Dedé, Mussum e Zacarias e atualmente segue novamente solo.
Uma revelação: como interesse profissional, o cinema veio sempre antes da televisão. A um grande número de jornalistas ele falou ainda sobre as imensas dificuldades em abrir espaços no mercado exibidor nacional, abarrotado com a concorrência blockbuster que cada vez dificulta o acesso de seus filmes a uma platéia que ele tem certeza que potencialmente está sempre à espera de seus títulos. Outra preocupação do ator é o fascínio manipulado pelo computador, que cada vez segura mais a criançada em casa.
Aplaudido de pé pelo público que lotou a sala de exibições, um muito emocionado Aragão agradeceu com a simplicidade que sempre marcou suas falas, na tela e nos bastidores. Exibido logo na sequência, o filme que inaugurou fora de concurso a 36 edição de Gramado. Flagrante equívoco da organização, a produção gaúcha ''Dias e Noites'' não merecia estar na privilegiada condição de primeiro da fila. Dirigido por Beto Souza, um drama-denúncia sobre a violência praticada contra as mulheres. Nada contra o tema ou as intenções. A questão é a maneira como foi tratado o assunto. Dramaturgia rala e interpretações indigentes para contar a sofredora trajetória de Clotilde, uma espécie de protótipo da condição feminina humilhada pelo macho absurdamente prepotente. Maniqueísta em sua forma mais simplista e constrangedora, o filme termina prestando um desserviço, tal o seu nível pedestre e seus consumados resultados caricaturais - não intencionais, claro, o que pior.
Sem margem de comparação, o primeiro brasileiro a entrar na competição foi outro drama centrado na figura feminina. ''Nome Próprio'', escrito e dirigido por Murilo Salles, um espécie de auto-retrato intenso, dilacerante de Camila, jovem candidata a escritora e que vai levando sua vida bem na fronteira com os extremos em busca de afirmação como mulher deste século. Salles, infelizmente um diretor bissexto por conta dos perversos descaminhos que atormentam o realizador de cinema no Brasil, constrói um filme no qual o fascínio está em sua construção - Camila quase uma extensão física do computador, é nele e através dele que ela interege com o mundo exterior. Na verdade, ela é um e-mail ambulante. O filme tem esta urgência, quase sempre dolorosa, que este nosso tempo de existência virtual paralela vem impondo como forma de comunicação com o outro.
Além do trabalho vigoroso da direção, há um outro, corajosamente exacerbado de Miranda Leal como Camila, e uma direção de arte esplendida em sua proposta minimalista - Salles está de volta ao universo fechado, ao espaço físico recluso dos apartamentos que tão bem abriram sua carreira em 1984 com ''Nunca Fomos Tão Felizes'', ainda seu melhor filme.


