São 25 edições ininterruptas, trazidas até aqui com muita e saudável teimosia. Com acertos e equívocos. Não foi à toa que a comissão organizadora vem divulgando a mostra com a frase ‘‘25 anos em movimento’’. O Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro, começa hoje às oito da noite - e termina dia 16 - mostrando exatamente seu maior acerto, esta necessária convivência entre as mais diferenciadas cinematografias do continente: ‘‘Lua de Outubro’’, longa metragem gaúcho fora de competição, e ‘‘Sotto Voce’’, argentino de Mario Lavin, abrem a mostra. Este ano os brasileiros ainda estão entrando na festa em menor número e mediante convite, mas em 98 a crescente produção e uma qualidade mais depurada já devem permitir um processo de seleção. E talvez uma única mostra competitiva, sem distinção de nacionalidades ou de comissões julgadoras.
Cubanos em dobro Além do argentino ‘‘Sotto Voce’’, concorrem aos Kikitos no segmento latino: ‘‘Ilona Llega com la Lluvia’’, do mais cosmopolita diretor colombiano, Sergio Cabrera; os cubanos ‘‘Yo Soy del Son a la Salsa’’, documentário de Rigoberto Lopez em co-produção com os Estados Unidos e ‘‘Pon Tu Pensamiento en Mi’’, de Arturo Sotto; o português (co-produzido por Cabo Verde) ‘‘O Testamento do Senhor Napomuceno da Silva’’, de Francisco Manso com roteiro de Mario Prata; ‘‘Bajo la Piel’’, Peru, de Francisco Lombardi; ‘‘Santera’’, de Solveig Hoogestejn (Venezuela), e uma novidade da Republica Dominicana, ‘‘Nueva Yol’’, de Angel Muniz.
Entre os brasileiros, boas expectativas cercam ‘‘Os Matadores’’, estréia no longa do curtametragista Beto Brant. Também concorrem ‘‘For All - O Trampolim da Vitória’’, de Luis Carlos Lacerda, ‘‘Buena Sorte’’, de Tania Lamarca, ‘‘O Homem Nu’’, comédia de Hugo Carvana a partir do clássico de Fernando Sabino; ‘‘Bocage, o Triunfo do Amor’’, de Djalma Limongi Batista e ‘‘O Amor Está no Ar’’, produção capixaba dirigida por Hamilton de Almeida, que morreu antes de ver o filme terminado. Duas ausências comentadas e a princípio lamentadas: ‘‘A Ostra e o Vento’’, de Walter Lima Jr., que vai reabrir as portas do Festival de Veneza para a produção brasileira, a partir do dia 27; e a superprodução ‘‘A Guerra de Canudos’’, que o diretor Sergio Rezende preferiu não mostrar em Gramado - pelo menos em competição - e já com lançamento nacional previsto para o fim de agosto ou início de setembro em grande circuito.
Curtas e paralelas Quem já viu os curtas durante a seleção garante que os bons tempos voltaram depois da magérrima entressafra dos últimos anos e que o público do Palácio dos Festivais vai ver filmes de alto nível. Como ‘‘Angelo Anda Sumido’’, o mais recente do Jorge Goulart, de quem sempre se espera um repique do excepcional ‘‘Ilha das Flores’’. A curiosidade é que São Paulo, tradicional usina de curtas movidos a inventidade e talento, desta vez não emplacou, dando vez à produção carioca e gaúcha.
Mas nem só de filmes vive um evento das proporções de Gramado. As manifestações paralelas sempre pontificam. A mais importante, embora ligada ao festival, vai acontecer num hotel cinco estrelas em Canela. É o Encontro Nacional de Exibidores, que deve reunir 20 dos principais donos de grandes circuitos do País discutindo as necessidades da classe. Mas o melhor vem depois: agora em Gramado, esses exibidores vão se sentar à mesa com os realizadores brasileiros convidados pelo Festival. É a antiga e tradicionalmente fracassada tentativa de encontrar alternativas para aumentar a presença de filmes brasileiros nas salas exibidoras do Brasil. Desta vez há mais otimismo entre os cineastas, de posse de elementos concretos - a boa rentabilidade da recente safra de filmes nacionais e o variado cardápio de novas produções a caminho.
Outra iniciativa prevista para acontecer durante a próxima semana é o lançamento do Fórum Nacional de Festivais de Cinema e Vídeo do Brasil, com o painel especial ‘‘Descentralização da Produção Audiovisual no Brasil: Exemplo do Cearᒒ.
Homenagens A oitava edição do Troféu Oscarito vai este ano para quem conviveu bem de perto com o grande cômico: José Lewgoy, que há mais de 50 anos vem construindo uma carreira de personagens característicos no cinema, teatro e televisão. Outra homenageada é a agora nonagenária Dercy Gonçalves. Uma das mais populares atrizes argentinas, outrora conhecida apelativamente como ‘‘la reina del nudismo’’, Isabel Sarli também pisa o palco do Palácio dos Festivais para receber um prêmio. Entre as diversas mostras, a do centenário do cinema brasileiro (a ser comemorado em 98) traz documentários sobre primitivos e pioneiros, além de curtas sobre Alberto Cavalcanti e Humberto Mauro, dois de nossos maiores realizadores e ambos nascidos em 1897.
E pela primeira vez um organismo internacional decide patrocinar um prêmio num festival de cinema no Brasil. Além de promover para estudantes a exibição de todos os filmes fora de concurso, a Unesco vai premiar novos realizadores que participam do festival.

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