Gramado emplaca um quarto de século
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quinta-feira, 07 de agosto de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
São 25 edições ininterruptas, trazidas até aqui com muita e saudável teimosia. Com acertos e equívocos. Não foi à toa que a comissão organizadora vem divulgando a mostra com a frase 25 anos em movimento. O Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro, começa hoje às oito da noite - e termina dia 16 - mostrando exatamente seu maior acerto, esta necessária convivência entre as mais diferenciadas cinematografias do continente: Lua de Outubro, longa metragem gaúcho fora de competição, e Sotto Voce, argentino de Mario Lavin, abrem a mostra. Este ano os brasileiros ainda estão entrando na festa em menor número e mediante convite, mas em 98 a crescente produção e uma qualidade mais depurada já devem permitir um processo de seleção. E talvez uma única mostra competitiva, sem distinção de nacionalidades ou de comissões julgadoras.
Cubanos em dobro Além do argentino Sotto Voce, concorrem aos Kikitos no segmento latino: Ilona Llega com la Lluvia, do mais cosmopolita diretor colombiano, Sergio Cabrera; os cubanos Yo Soy del Son a la Salsa, documentário de Rigoberto Lopez em co-produção com os Estados Unidos e Pon Tu Pensamiento en Mi, de Arturo Sotto; o português (co-produzido por Cabo Verde) O Testamento do Senhor Napomuceno da Silva, de Francisco Manso com roteiro de Mario Prata; Bajo la Piel, Peru, de Francisco Lombardi; Santera, de Solveig Hoogestejn (Venezuela), e uma novidade da Republica Dominicana, Nueva Yol, de Angel Muniz.
Entre os brasileiros, boas expectativas cercam Os Matadores, estréia no longa do curtametragista Beto Brant. Também concorrem For All - O Trampolim da Vitória, de Luis Carlos Lacerda, Buena Sorte, de Tania Lamarca, O Homem Nu, comédia de Hugo Carvana a partir do clássico de Fernando Sabino; Bocage, o Triunfo do Amor, de Djalma Limongi Batista e O Amor Está no Ar, produção capixaba dirigida por Hamilton de Almeida, que morreu antes de ver o filme terminado. Duas ausências comentadas e a princípio lamentadas: A Ostra e o Vento, de Walter Lima Jr., que vai reabrir as portas do Festival de Veneza para a produção brasileira, a partir do dia 27; e a superprodução A Guerra de Canudos, que o diretor Sergio Rezende preferiu não mostrar em Gramado - pelo menos em competição - e já com lançamento nacional previsto para o fim de agosto ou início de setembro em grande circuito.
Curtas e paralelas Quem já viu os curtas durante a seleção garante que os bons tempos voltaram depois da magérrima entressafra dos últimos anos e que o público do Palácio dos Festivais vai ver filmes de alto nível. Como Angelo Anda Sumido, o mais recente do Jorge Goulart, de quem sempre se espera um repique do excepcional Ilha das Flores. A curiosidade é que São Paulo, tradicional usina de curtas movidos a inventidade e talento, desta vez não emplacou, dando vez à produção carioca e gaúcha.
Mas nem só de filmes vive um evento das proporções de Gramado. As manifestações paralelas sempre pontificam. A mais importante, embora ligada ao festival, vai acontecer num hotel cinco estrelas em Canela. É o Encontro Nacional de Exibidores, que deve reunir 20 dos principais donos de grandes circuitos do País discutindo as necessidades da classe. Mas o melhor vem depois: agora em Gramado, esses exibidores vão se sentar à mesa com os realizadores brasileiros convidados pelo Festival. É a antiga e tradicionalmente fracassada tentativa de encontrar alternativas para aumentar a presença de filmes brasileiros nas salas exibidoras do Brasil. Desta vez há mais otimismo entre os cineastas, de posse de elementos concretos - a boa rentabilidade da recente safra de filmes nacionais e o variado cardápio de novas produções a caminho.
Outra iniciativa prevista para acontecer durante a próxima semana é o lançamento do Fórum Nacional de Festivais de Cinema e Vídeo do Brasil, com o painel especial Descentralização da Produção Audiovisual no Brasil: Exemplo do Ceará.
Homenagens A oitava edição do Troféu Oscarito vai este ano para quem conviveu bem de perto com o grande cômico: José Lewgoy, que há mais de 50 anos vem construindo uma carreira de personagens característicos no cinema, teatro e televisão. Outra homenageada é a agora nonagenária Dercy Gonçalves. Uma das mais populares atrizes argentinas, outrora conhecida apelativamente como la reina del nudismo, Isabel Sarli também pisa o palco do Palácio dos Festivais para receber um prêmio. Entre as diversas mostras, a do centenário do cinema brasileiro (a ser comemorado em 98) traz documentários sobre primitivos e pioneiros, além de curtas sobre Alberto Cavalcanti e Humberto Mauro, dois de nossos maiores realizadores e ambos nascidos em 1897.
E pela primeira vez um organismo internacional decide patrocinar um prêmio num festival de cinema no Brasil. Além de promover para estudantes a exibição de todos os filmes fora de concurso, a Unesco vai premiar novos realizadores que participam do festival.


