Três longas brasileiros e seis estrangeiros estarão a partir de amanhã à noite disputando os troféus Kikito do 28º Festival de Gramado – Cinema Latino e Brasileiro. O longa cubano ‘‘Las Profecias de Amanda’’, de Pastor Vega, e o espanhol ‘‘El Pianista’’, de Mario Gas, dividem as honras da sessão de abertura com os curtas ‘‘O BMW Vermelho’’, ‘‘Almas em Chamas’’ e ‘‘Conceição’’, todos em competição. Os outros convidados são da Argentina, Peru, México e Uruguai.
A exemplo do ano passado, a organização optou pela fórmula mais enxuta, com a mostra se esgotando em apenas seis dias – a sessão de encerramento é no próximo sábado, com a exibição hors concours de ‘‘Eu, Tu, Eles’’, de Andrucha Waddington. Nesses tempos de economia enviezada, nada como prudência e bom senso para manter gastos sob controle. Os fados também não andam lá muito sorridentes para a produção cinematográfica brasileira, de novo metida na velha camisa de força do recurso volátil e do mercado inexistente.
A exemplo do ano passado, quando os títulos resultaram em grupo de alto nível, quem subir a serra a partir de amanhã tem boas chances de encontrar cinema de qualidade, todas as noites na tela no Palácio dos Festivais, o velho e aconchegante ex-Cine Embaixador. A safra de curtas, a maioria inéditos, nunca decepciona. Este ano são 14 em 35mm – entre eles o paranaense ‘‘Aldeia’’, de Geraldo Pioli.
Muito equilíbrio, este ano na distribuição de selecionados por Estado. Ligeira vantagem dos paulistas (4), seguidos de perto por gaúchos (3), cariocas (2), um de Mato Grosso, um de Brasília, um de Pernambuco e um da Paraíba. Há ainda uma disputa na bitola de 16mm. São dez curtas e quatro médias metragens em busca dos Kikitos destinados à categoria.
Para os longas, o júri convidado tem os nomes do diretor Roberto Farias, da atriz Betty Faria, da intérprete cubana Mirta Ybarra, do diretor português José Fonseca e Costa e do espanhol Manoel Lhamas. No julgamento de curtas e médias, 35 e 16mm, o jornalista Luis Carlos Lisboa, o cineasta Roberval Duarte, a diretora Ana Luisa Azevedo, a produtora e animadora cultural Renata Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e o cineasta pernambucano Lirio Ferreira.
Entre os títulos da categoria principal, quem tem credenciais já testadas em outros festivais são os estrangeiros. ‘‘Pantaleón y las Visitadoras’’ causou ótima impressão – além de ter arrancado boas gargalhadas – na seção ‘‘Panorama’’ do Festival de Berlim, em fevereiro, segundo registro de jornalistas espanhóis. É o competente Francisco Lombardi revisitando um clássico das letras do continente, a novela homônima de Mario Vargas Llosa. Outro a verificar com especial atenção é ‘‘Santitos’’, mexicano de Alejandro Springall, um registro mágico-realista da cultura popular do México. A comédia dramático-romântica ‘‘El Mismo Amor, la Misma Lluvia’’, da Argentina, chega avalizado por um feito considerado aparentemente impossível: ganhar os principais prêmios cinematográficos do país este ano – oito Condor, inclusive o de melhor filme – disputando com dois pesos pesados, os dramas ‘‘Garage Olimpo’’ e ‘‘Mundo Grua’’. Cuba e Uruguai, respectivamente, com ‘‘Las Profecias de Alicia’’ e ‘‘El Viñedo’’, são duas incógnitas.
E há, claro, os brasileiros. O ‘‘Estorvo’’ de Ruy Guerra encontra a platéia nacional depois da indiferença, quase hostilidade da grande imprensa internacional no Festival de Cannes. Já há defensores declarados deste filme tortuoso e obsoleto. Pode rolar polêmca, inócua ainda que saudável. ‘‘Quase Nada’’ é um Sergio Rezende em registro intimista, um filme aparentemente pequeno em forma e fundo, e por isso mesmo desde já sob cuidados atentos. Rezende, apenas como lembrete, vem de dois épicos, dois colossais – para os padrões brasileiros: ‘‘Canudos’’ e ‘‘Mauá – O Imperador e o Rei’’.
Nosso terceiro representante é uma ilustre estréia. Florinda Bolkan assina uma antigo sonho, ‘‘Eu Não Conhecia Tururu’’, comédia de costumes com o Ceará contemporâneo como recorte de fundo. Elenco de belas mulheres e sólidas atrizes, como a própria Florinda, Maria Zilda, Suzana Gonçalves, Ingra Liberato, Lidia Mattos.
Uma alternativa para as tardes da próxima semana em Gramado são as mostras paralelas ‘‘PremiSre Gramado’’ e o ‘‘Espaço Documentário’’. Nas duas programações, alguns biscoitos finíssimos, como ‘‘Los Libros y la Noche’’, documentário preciso e poético sobre o universo de maravilhas de Jorge Luis Borges. Ou como o muito simpático épico português ‘‘Capitães de Abril’’, com a atriz Maria de Medeiros debutando por trás da câmera.
Não seria Gramado 2000 um festival completo sem as tradicionais homenagens. A mais significativa – o Troféu Oscarito-MoviStar – vai para o ator Paulo José pelas muitas e importantes contribuições ao cinema nacional ao longo de uma carreira de títulos consagrados, como ‘‘O Padre e a Moça’’, ‘‘Todas as Mulheres do Mundo’’, ‘‘Macunaíma’’, entre muitos outros. O produtor e diretor Roberto Farias também ganha reconhecimento.

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