"Goya" reforça clichê do mistério da arte
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quarta-feira, 19 de abril de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 20 (AE) - Jogar na tela a biografia de grandes personagens é uma armadilha na qual cineastas costumam cair. "Villa-Lobos, uma Vida de Paixão, de Zelito Viana, e "Goya", de Carlos Saura, são dois exemplos disponíveis ao público nesta semana. Apesar dos muitos méritos dos dois filmes, dificilmente se pode dizer que estejam à altura das figuras que elegem por tema. Não conseguem passar ao público a dimensão artística dos grandes criadores que tentam retratar. Ficamos sabemos alguma coisa da vida deles, dos incidentes que os levaram a agir assim ou assado, mas a sua arte - seu significado
importância e gênese - permanece como o mais opaco dos mistérios deste mundo.
"Goya" tem uma vantagem. Como seu assunto é um artista plástico, aliás um dos grandes da história da humanidade, Saura aposta todas suas fichas na beleza visual. Conta com um auxílio da pesada para isso, o fotógrafo Vittorio Storaro, com quem tem trabalhado em seus últimos filmes e a quem deveria dar co-autoria. Com Storaro é assim: cada sequência, cada cena é construída com o rigor de uma tela, com atenção às cores, mas também à distribuição dos volumes e das proporções. O espectador têm uma sensação quase tátil daquilo que está vendo, como se percebe nas cenas de abertura, quando a câmera passeia pelas cores e pelas tintas usadas pelo artista.
Francisco (Paco) Rabal faz o pintor já velho, à beira da morte, vivendo com sua mulher e filhos, e recordando-se do passado. Lembrando-se sobretudo da duquesa de Alba (Maribel Verdú), musa, amante e modelo de obras-primas como "A Maja Vestida e A Maja Desnuda. Há algo de muito humano, demasiadamente humano, mesmo no gênio que foi "Goya", da maneira como é visto por Saura - partilhando desse sentimento de perda que é comum a todos os homens quando olham para o passado. A duquesa, Cayetana, como se chamava, era uma mulher evoluída para sua época. Tinha vários amantes e Francisco de Goya foi apenas um deles. Nunca a esqueceu, o que não é difícil de entender quando se olha para os quadros, expostos no museu do Prado.
É tocante acompanhar essas recordações de um velho quando examina em retrospecto o seu passado. Mas não é possível evitar certo desapontamento quando se pensa que o filme está falando de um dos pais da pintura moderna. Apesar da beleza, da suntuosidade visual do estilo, o espectador não fica sabendo grande coisa do processo de criação do artista. Mais uma vez se repete (ainda que de maneira implícita) o estereótipo sobre o mistério da obra de arte. Como se ela aparecesse por milagre, geração espontânea ou por força do destino. Nada é dito sobre as etapas de formação, a soma das influências sofridas, o trabalho (em geral muito árduo) de depuração, necessários para que um salto qualitativo seja dado na história da arte.
Pode-se argumentar que se trata de ficção e não de documenário. Verdade. Como também parece razoável supor que quando escolhe um personagem histórico como tema de filme, o cineasta sinta algum tipo de atração por sua vida, por seu trabalho, por sua contribuição à obra universal. Digamos assim: no melhor dos casos, o diretor sente-se desafiado pelo mistério que é uma obra das dimensões da de Francisco de Goya y Lucientes. Admitir que essa grande obra tenha um lado de mistério, algo de irredutivelmente inexplicável, não significa renunciar à compreensão. Pelo contrário. Apenas o difícil é estimulante - ou deveria ser, como achava Paul Valéry. Acontece que é mais fácil ficar no anedotário da vida do personagem que concentrar-se naquilo que ele produziu.
Não que "Goya não tenha desses momentos privilegiados, quando sugere como a vida e a obra se interligam. Num deles é encenada (em linguagem teatral, mesmo) a funda impressão que a violência causava no artista, o que o levaria à série magistral de litogravuras "Os Desastres da Guerra". Noutra, a descoberta da obra-prima de um rival, "Las Meninas", de Velásquez, quando Goya percebe, vendo o quadro, que uma perspectiva diferente da pintura se abria ali.
São momentos raros, no entanto. Em geral, a biografia prevalece sobre a "cosa mentale" que é a a arte produzida pelo biografado. Apesar dessa insuficiência, o espectador pode-se deixar levar pelo espetáculo visual proporcionado pelo filme. Há
por parte de Storaro, a perfeita percepção de que está trabalhando no domínio da fantasia visual, e por isso não poupa recursos para embarcar nessa viagem e levar o espectador com ele. Falta-lhe uma contrapartida dramatúrgica, que nem a presença cênica de Paco Rabal nem a força carnal de Maribel Verdú conseguem suprir. A exuberância visual faz de "Goya" um filme no mínimo agradável de se ver. Mas, convenhamos: para Goya
o pintor, é muito pouco. Serviço - Goya. Drama. Direção de Carlos Saura. Duração de 102 minutos.


