Um CD pop brasileiro em Nova York custa US$ 15. No Brasil, custa US$ 21. Os US$ 6 são de impostos disso e daquilo destinados a manter no bife passado na manteiga a vasta camorra estatal.

Flagrante

Visto na Quinta Avenida: Roberto Mogadon Suplicy comprando presentes de Natal nos bazares do imperialismo. Leitura recomendada: Scott Fitzgerald em ‘‘Tender is Night’’, quando Nicole Diver vai às compras na Riviera, e o autor mostra o custo humano do que compra. Vovô Matarazzo deve estar se congratulando consigo próprio na cova; ao lado, no corpo de Marx, nasceu mais um carbúnculo.

Escritoras

Kennedy Fraser é velho New Yorker. Nos conta que apareceu lá na redação quando tinha 21 anos, em 1968, e usava hot pants. É uma mulher bonita. É prova da serenidade das múmias da revista, como as satirizou Tom Wolfe, em artigo nunca publicado em livro, que quiseram ler o que escrevia em vez de lhe propor outra coisa. Fraser começou a escrever sobre moda. Com acúmen. Distingue o que há de inovativo em Chanel e Christian Dior, e o que há de postiço em Yves St. Laurent, que, no momento, é objeto de uma biografia iconográfica. Pfui.
Fraser escreve mulheres interessantes e homens que viveram em torno de mulheres. Seu livro ‘‘Ornamento e Música’’, Knopf, 247 págs., US$ 25, tem um ensaio sobre o egoísmo de Matisse, que usou a mulher, Amélie, e a filha (de outro casamento), Marguerite, exclusivamente para servi-lo como artista. As mulheres de Matisse, ou Cézanne, não nos excitam, como as de Picasso, porque Picasso, apesar de egoísta, era um homme à femmes, e seus colegas e competidores, não. É normal. Homens há que têm de viver enredados em mulheres, ainda que se destaquem, como Picasso. Outros as usam.

Virginia & incesto

Fraser repete que Virginia Woolf foi molestada anos a fio pelo seu meio-irmão George Duckworth e isso a inutilizou sexualmente. A irmã Vanessa também foi apalpada, mas conseguiu se realizar sexualmente com o primeiro marido, Clive Bell. Clive começou a ser franco-atirador, e Vanessa se ligou ao pintor Duncan Grant. Ele era homossexual. Dormiu um tempo com Vanessa. Tiveram uma filha, Angelica, perfilhada por Clive. Depois, Duncan se dedicou exclusivamente ao homossexualismo, com o economista Keynes, etc.
O biógrafo de Virginia, o melhor, seu sobrinho Quentin Bell, filho de Vanessa com Clive, se refere à molestação de Virginia, mas é reticente. Por quê?
Virginia com 50 anos, um ano antes de morrer, escreveu sobre as apalpadelas de George Duckworth. Há um livro de Louise DeSalvo chamado ‘‘Virginia Woolf: o Impacto Sobre sua Vida do Abuso Sexual’’. Virginia escreveu, em 1941: ‘‘Lembro sentir a mão dele... Como gostaria que tivesse parado.’’ Depois: ‘‘Colocando o que me aconteceu em palavras, eu faço disso uma totalidade que não tem mais poder de me ferir.’’ Um ano depois se suicidou.
Segundo Virginia, George continuou bolinando-a até que tinha 22 anos. O pai dela, Leslie Stephen, pilar de respeitabilidade intelectual vitoriana (editor do ‘‘Dicionário de Biografia Inglesa’’), morreu. George parou. Virginia teve um colapso.
Parece uma história de Henry James. Ainda que ninguém tenha escrito, acho que não foi George Duckworth quem molestou Virginia.

A melhor

Com todo o papo sobre escritores que se projetam na mídia dos EUA e mundial, a Random House publica em 887 págs., US$ 45, os contos reunidos de Mavis Gallant, canadense de origem francesa, radicada em Paris, onde escreve sua ficção para o ‘‘New Yorker’’, ou escrevia, antes do aviltamento atual. Há quem a considere a escritora mais completa da língua inglesa, um misto do sentimento de mistério de Henry James, com reticências artisticamente elaboradas, e a incisividade de Hemingway, que marcou toda a geração que lhe é posterior. Comentando a revolta estudantil de 1968, que viu a princípio com simpatia, depois, cafard, conclui que terminou porque começaram a faltar cigarros e o frio daquele maio desembocou no calor de junho, tempo de férias populares, a conquista trabalhista de Leon Blum, em 1936. Ninguém escreveu melhor do que ela sobre as relações de Sartre e Simone de Beauvoir.

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