Sérgio Bianchi recebe a reportagem da FOLHA para um bate-papo descontraído de forma bem peculiar. Sentando em sua cama, em um quarto de hotel de Curitiba, deixa de lado a leitura de ''O Ano-Novo de Montalbano'', policial do escritor italiano Andrea Camilleri, para falar sobre ''Os Inquilinos''. Não só comenta seu novo filme como também revê um pouco de sua carreira e critica a atual fase do cinema nacional.
''O texto do filme é uma parceria com a escritora Beatriz Bracher. É sobre um trabalhador que apenas quer viver bem. Sem bangue-bangue. Sem violência glamourizada'', afirma. Diferente de trabalhos anteriores, mais perturbadores, Bianchi decidiu por um caminho mais sutil, a partir do conto de Vagner Giovani Ferrer. ''Gostei muito do conto e a partir dali eu pedi outras coisas para a Beatriz, que me passou também outros livros e referências. Não tenho a vivência da periferia, não daria para fazer isso sem saber mais coisas. Então, virou um desafio fazer o filme.''
Bianchi, crítico do ''cinema nacional para inglês ver'', também explicou a razão que o leva a procurar esse retrato social, recorrente em sua filmografia. ''Por que não falo dos adolescentes do Brooklin? Simplesmente porque não moro lá. E se eu for falar da realidade da classe média vai ficar muito chato. Gosto de certas contradições, são coisas que me atraem'', diz, fumando um cigarro atrás do outro. ''Meus filmes não são apenas filmes para pensar. Não quero só isso. Gosto de dar um nó na cabeça do cara que está vendo e uso o que for preciso para isso, o drama, a ação.''
O longa foi filmado na Brasilândia, distrito que fica no noroeste da capital paulista, onde vivem pessoas que sequer têm acesso ao cinema. ''É triste isso, se eu fosse falar a verdade, essas pessoas nunca poderiam ver o filme. Mas sempre damos um jeito de exibir'', lamenta, antes de falar sobre o mercado nacional. ''O cinema brasileiro é uma indústria virtual. A televisão não passa. O cinema de rua acabou e os de shopping centers só exibem blockbusters. A periferia não tem dinheiro para ver. O povo não vê.''
Para o diretor, é difícil encontrar uma explicação positiva para o chamado cinema comercial. ''É tudo meio esquizofrênico. Não tem espaço para exibir os filmes e o espaço que existe não é nosso. Na verdade, fazer cinema é uma obsessão: você resolve fazer e passa dois anos atrás de dinheiro para conseguir terminar.'' Por que continuar fazendo então? ''Por que existir? Porque tem que existir, oras. O livro muitas vezes não é lido. Mas por isso a biblioteca tem que sumir?''
Um pouco chateado por ser um diretor ''mais comentado do que visto'', Bianchi destaca a importância do recente lançamento de uma caixa de DVDs sobre sua carreira, condensada em cinco discos. ''É difícil aceitar que não tenho muito público. Então, resolvi batalhar essa caixa. Principalmente para eu ter a sensação de que há um registro do que eu fiz. Não fiquei escolhendo nada. Coloquei tudo aí'', assegura, antes de se levantar e acender mais um cigarro. C.Y.

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