A resistência de Waldemar José dos Santos foi minada aos poucos. Militar de carreira, mantinha reservas quanto à dedicação da esposa e das filhas à Igreja Evangélica. Mas aos poucos, conversando com pastores, ele se converteu. A mudança teve como pano de fundo uma antiga paixão: a música.
Ainda na adolescência, Waldemar começou a se interessar por sonoridades. Quando ingressou na Polícia Militar, foi direto para a banda do Corpo de Bombeiros de Belo Horizonte, onde morava. Lá, se dedicava ao jazz, que também tomava seu tempo em apresentações em bailes e boates.
Um dia, alterou a estrutura de um coro que a mulher e as filhas cantavam sobre a história de Golias. Os acordes ganharam dissonâncias, a música seguiu um outro estilo e Waldemar gostou da brincadeira. Com a conversão, transformou a família em um verdadeiro grupo gospel. A decisão teve apoio da mulher, Nancy, que durante a infância e a adolescência interpretava sambas em rádios e TVs de Minas Gerais.
Da associação do samba com a música gospel, o jazz e elementos afro, surgiu a Família Dó Ré Mi, formada por Waldemar, Nancy e os filhos Dulcimar, Sônia e Júnior. O quinteto começou a se apresentar em igrejas de Belo Horizonte e ganhou influências de pastores americanos, desenvolvendo características que o assemelham a grupos tradicionais dos Estados Unidos.
‘‘O conjunto foi surgindo do envolvimento da família com a música. Eu ensinei a Sônia a tocar contrabaixo, a Nancy e a Dulcimar eram crooners, o Júnior aprendeu a tocar bateria e assim foi acontecendo’’, explica Waldemar. A Família Dó Ré Mi mora atualmente em Londrina, para onde veio em 1993, quando Waldemar se tornou pastor da Igreja do Nazareno, no Conjunto Antares.
No início, até a igreja que Waldemar frequentava em Belo Horizonte resistiu à idéia de adotar um conjunto com baixo, bateria e guitarra. ‘‘Era tudo muito tradicional, só se aceitava piano e órgão. Acabei introduzindo isso com a família envolvida em atividades de louvor’’, comentar Waldemar.
O pastor, instrumentista e compositor vê com bons olhos a influência de vários estilos musicais no grupo: ‘‘Eu tocava bossa nova e jazz, gosto até hoje, mas também temos uma tendência afro por termos raízes negras, e isso traz um resultado bom no louvor.’’
A fama do conjunto foi se espalhando por Belo Horizonte e logo surgiu o apelido Dó Ré Mi, associado a um seriado da época. Após a participação em vários festivais, com composições próprias, o grupo se apresentou na Argentina com Billy Graham, um conhecido pastor americano.
Quando o superintendente da Igreja de Londrina convidou Waldemar para ser pastor no Conjunto Antares, o músico topou o desafio. ‘‘Desde então não trabalhamos muito a música, porque essa estruturação deu muito trabalho, tomou muito tempo’’, revela. Hoje, além da família, já existe o grupo Ômega, originado nas atividades da igreja.
‘‘Todos acham curioso pois somos uma família de negros e a maior parte da nossa igreja é composta de negros, mas não foi nada premeditado’’, ressalta Nancy. A comparação com grupos internacionais é frequente: ‘‘Quando ainda não tínhamos bateria, eu marcava o tempo estalando os dedos, e as pessoas nos identificavam com cantores norte-americanos.’’
A família, que mora nos fundos da igreja da Rua Iberis - quase esquina com a Rua Iracema - pensa em gravar um CD, mas as dificuldades não são poucas: ‘‘Queremos fazer uma coisa boa, isso envolve estúdio, apoio financeiro, um arranjador e tempo para divulgação. Não há tempo por causa do ministério pastoral, e é difícil deslocar toda a família, pois nossos filhos trabalham. Mas há um projeto e temos muito incentivo em Londrina’’, revela Waldemar. Por isso, por enquanto, a Família Dó Ré Mi só pode ser ouvida em dias de culto - quarta e quinta, às 20 horas; sábado às 19 horas e domingo às 19h30 - quando a pequena igreja ressoa com os vozeirões.Mário CésarA Família Dó Ré Mi utiliza teclados, baixo, bateria, guitarra e vocais nos cultos que acontecem numa igreja em LondrinaRanulfo Pedreiro

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