Antes de levar suas imagens para a 1ª Bienal Internacional de Fotografia de Porto Rico, no Museu das Américas, em San Juan, Fernanda Magalhães deixa-as expostas na Galeria Schneider, em Curitiba. Elas também irão para a cidade mineira de Tiradentes (sem data marcada) e entre abril e maio de 99 estarão na Funarte, no Rio de Janeiro.
A fotógrafa não guarda só ilusões cor-de-rosa quanto às reações das pessoas: ‘‘Realmente tem quem goste, adore a exposição. Mas tem também quem odeie’’. O afluxo de público, por sua vez, é motivado pela curiosidade do tema - uma mulher gorda que tirou a roupa e fez seu auto-retrato. Neste final de século, onde a ordem é a magreza cadavérica, exibir o contrário daquilo que é imposto é uma brutal transgressão.
O ‘‘virar a mesa’’ começou a acontecer na vida de Fernanda há cinco anos, quando chegou no Rio de Janeiro e encontrou ali outra cultura. Cidade litorânea, onde o culto ao corpo é exacerbado, ela também agrega os obesos que colocam seus maiôs e saem para o sol e a vida no mesmo pé de igualdade. ‘‘Eu vinha de um lugar fechado’’, lembra. O contato carioca resultou no auto-retrato e em mudanças fundamentais que aconteceram a partir disso.
Envolvida com o processo foi em busca de material bibliográfico que tratasse de temas como o desejo, a admiração sobre a mulher. Enfim, a atração existe, o sexo envereda por caminhos próprios e não por aqueles pré-determinados por estilistas. Mas onde encontrar literatura sobre o tema?
Sem êxito na investigação, pediu ajuda aos alunos da Universidade Estadual de Londrina, onde é professora de fotografia, e assim conseguiu levantar centenas de artigos extraídos de revistas, jornais, publicações pornográficas, extraídos de jornais. De posse disso tudo, elaborou um texto que pretende transformar em livro, mas aí já é outra história que vem num desdobramento das etapas do projeto fotográfico. A exposição ‘‘A Mulher Gorda Nua na Fotografia’’ não encerra a questão da obesidade. Fernanda Magalhães abriu o tema e quer ir além com a edição de um livro que reunirá os diversos aspectos apresentados através do material bibliográfico e iconográfico que vem colecionando. Haverá classificações científicas da obesidade, fotos e um relato autobiográfico completo.
Ali estará a discussão sobre culpa, sexo, família, conceitos e preconceitos. ‘‘Serão minhas reflexões’’, avisa, incluindo no trabalho entrevistas com mulheres gordas. Homens não entram nessa história pelo motivo singelo de que praticamente não existem ‘‘homens gordos’’. ‘‘Eles são grandes’’, ironiza. E mais: cabe ao sexo feminino a submissão, o corpo-objeto, a necessidade de atender às ditaduras da estética. O livro já tem título. Será ‘‘A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia’’.
Porém, para que isso aconteça, é necessário um patrocinador. A exposição que vem chamando a atenção por onde passa, por exemplo, só aconteceu graças ao incentivo do Prêmio Marc Ferrez, da Funarte, conquistado em 1995. Não fosse o prêmio - em dinheiro - talvez a idéia ainda estivesse no papel.
Filha de pai jornalista e dono de tipografia, Fernanda Magalhães carrega nas fotos a herança da paixão pelas letras. Explica-se assim a montagem das letras sobre seu corpo, recortadas dos artigos pesquisados e de textos que ela própria escreveu. Elemento a mais de afirmação, de sua personalidade.
Sobre a experiência da nudez, a fotógrafa pouco tem a falar. ‘‘Eu já era muito observada por ser gorda; sentia que as pessoas me olhavam. Tirar a roupa não foi complicado.’’ Foi um ato de seestar presente para a vida, liberando-se de um peso finalmente desvencilhado.

SERVIÇO
• Preferencial - fotos de Rogério Ghomes, na Ybakatu Espaço de Arte, Rua Itupava, 414. Visitação pública de terça a sexta-feira das 14 às 19 horas, sábado das 10 às 13 horas.
• A Mulher Gorda Nua na Fotografia - fotos de Fernanda Magalhães, na Galeria Schneider, Travessa Dr. Claudino dos Santos, 116. Visitação pública de segunda a sexta-feira das 10 às 19 horas, sábados e domingos das 9 às 16 horas. As mostras fazem parte da 2ª Bienal Internacional de Fotografia.

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