Gordos sim, e sem vergonha
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
Fernanda Magalhães: fotos para mostrar a gordura sem censuraNo quarto, poucos móveis. A parede era branca, havia um colchão no chão. Rio de Janeiro, a cidade na qual ela chegou 31 quilos mais magra. A fotógrafa Fernanda Magalhães estava lá porque havia sido selecionada para fazer um curso de especialização em nível de Ateliê Livre com o fotógrafo Pedro Vasques. Um dia qualquer de 93, em que se sentia sozinha, resolveu fotografar-se. Posicionou a máquina na janela e clic. O resultado a agradou muito. Dias depois, ela resolveu ousar um pouco mais e, máquina novamente posicionada na janela do quarto de parede branca, fez uma sequência de auto-retratos nus. Eu fiquei chocada e não mostrei a ninguém. Havia detalhes no meu corpo e nas fotos que eu não gostei, recortei e coloquei tudo numa caixinha - diz Fernanda.
Da caixinha com os recortes, veio a idéia, dias depois, de verter aquele material no trabalho de conclusão do curso que fazia. Pensou em colagem. Fez colagem. Montou tudo em chapas e ampliou numa máquina xerox 5775, destas que reproduzem fotos em cor. O resultado agradou em cheio ao fotógrafo Pedro Vasques. O trabalho chegou a ser exposto em Londrina, em 95.
A partir disso, a questão da mulher gorda - que ela até então tirava apenas de letra - passou a ser um encarada num misto de arte e realidade, um mote que ela, futuramente, gostaria de desenvolver. Como? Nem ela sabia ao certo.
EncontroUma noite, em 95, Fernanda Magalhães foi a um bar assistir a um espetáculo de teatro. Lá, encontrou mais duas amigas gordas. Sentaram perto. Uma até acabou brincando com a situação. A partir desse encontro passei a pensar num projeto maior que poderia ser um livro, um show, uma peça teatral que falasse da mulher gorda - diz ela. Nenhuma dessas pretensões saiu do papel. Ela acabou por montar o projeto A representação da mulher gorda nua na fotografia e remeteu a algumas instituições e... nada de retorno.
Até que um belo dia lhe caiu nas mãos o formulário de inscrição do 8º Prêmio de Fotografia Marc Ferrez, promovido pela Funarte, em 95. Inscreveu-se. E foi um dos cinco candidatos selecionados de um total de 117 participantes. Durante 96, desenvolveu o trabalho utilizando, basicamente, a colagem como técnica. O resultado pôde ser visto numa exposição que ficou mais de um mês na Sala Celso Garcia Cid, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina.
Mais de mil pessoas passaram os olhos sobre o trabalho de Fernanda. Teve gente que se emocionou com o que viu. Mas minha intenção não foi fazer apologia e sim mostrar uma coisa que realmente existe - diz a fotógrafa que pretende levar a exposição para outros cantos.


