"Gordos e Magros"é comédia absurda sobre milionário obeso
São Paulo, 21 (AE) - Mário Carneiro é considerado um do mais completos fotógrafos do cinema brasileiro. Artista plástico de origem, emprestou seu olhar educado a filmes como "Porto das Caixas" e "O Viajante", do seu amigo Paulo César Saraceni, entre muitos outros. Figura fundamental na história do Cinema Novo, Carneiro dirigiu um único longa-metragem, "Gordos e Magros", que a Rio Filmes lança agora em parceria com a Sagres.
Trata-se de uma comédia absurda, com intenção crítica. Carlos Kroeber faz o milionário obeso, que vive se empanturrando de comida e bebida. É uma imagem da voracidade das elites. Como ele não tem mais apetitite, porque está sempre saciado, resolve "comprar" a fome de um faquir e dela alimentar-se. A fome do pobre serve para o rico sobreviver.
Descrito assim, o filme parece de uma retórica assustadora, daqueles que espantam o espectador à primeira cena com suas metáforas óbvias. Foi assim com o cinema brasileiro durante certa época. As obras - filmes, livros, peças teatrais - sofriam com a vigilância impiedosa da censura e a sua válvula de escape era a linguagem alegórica. Opção que não é ruim em si, mas produziu, às vezes, coisas insuportáveis.
Não é nem de longe o caso de "Gordos e Magros". Carneiro mantém a narrativa naquela linha tênue que separa o grotesco do mau gosto puro e simples. No entanto, a idéia inicial da história é muito melhor do que o seu desenvolvimento. Parece aquele caso típico de tema que renderia um curta-metragem bem enxuto, mas que fica esticado no formato longa-metragem. A graça das situações vai esgarçando-se e, depois de certo tempo, não é mais possível rir com vontade - o que é fatal para comédias, de conteúdo social ou não.
Fica, porém, o retrato bem calibrado das elites. Não se trata apenas do personagem de Kroeber, o famélico crônico. Tônia Carrero interpreta a sua mãe, dondoca refinada, mas fútil até a última renda.
O centro da história (que recua em flash-backs e depois torna a avançar) é uma festa em que as boas maneiras são pouco a pouco substituídas pela mais extrema baixaria. A idéia é que a boa educação, ou pelo menos essa que passa por refinamento, é mais um efeito de fachada, verniz, do que uma atitude bem assimilada. Há um quê de barbárie passando pelas boas maneiras da personagem de Tônia, mais até que na do grosseirão contumaz vivido por Kroeber.
É uma das funções da arte, se é que se pode falar em termos utilitários nesse domínio. Em todo o caso, há uma geração de artistas, ainda em atividade, que considera seu dever exercer essa função compensatória em sociedades sem nenhum critério de existência, como é o caso da brasileira. Esse tipo de disposição em remar contra a maré compensa por si só certos desníveis estéticos sérios de Gordos e Magros. Gordos e Magros. Brasil, 1978. Direção de Mário Carneiro. Com Carlos Kroeber, Tônia Carrero, Hugo Carvana, Arnaldo Jabor. Distribuição: RioFilmes/Sagres





