GONZAGUINHA GANHA TRIBUTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de setembro de 2001
Nelson Sato 
A passagem dos dez anos de morte tem motivado a redescoberta de Gonzaguinha (1945-1991), notável primeiro por ser filho do baião e depois pela trajetória como intérprete e compositor.
Para celebrar a efeméride, a gravadora BMG está lançando o CD ''Simples Saudade'' com 19 músicas do artista nas vozes de intérpretes diversos como Gal Costa, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Os Incríveis e Roupa Nova. A heterogeneidade dos nomes elencados no tributo reforça a variedade temática que sua obra alcançou ao longo dos anos, quando foi deixando para trás o pendor grave e rancoroso dos discos iniciais.
O repertório selecionado traz um Gonzaguinha preocupado com as relações amorosas e as angústias existenciais. Uma ou outra faixa registram sua verve político-social. O CD inclui sucessos como ''Espere por mim, Morena'' (na voz de Maria Bethânia) e ''Começaria Tudo Outra Vez'' (Angela Maria e Cauby Peixoto), esta última fornecendo o título ao álbum de 1976 que marcaria um passo decisivo em sua trajetória.
O disco, com seus primeiros êxitos radiofônicos, daria largada a uma fase de glórias na qual Gonzaguinha seria cada vez mais gravado por outros intérpretes. Em 1980, ele voltaria às paradas com o álbum ''De Volta ao Começo'', que trazia a passional ''Sangrando'' e os dramas conjugais explícitos de ''Ponto de Interrogação'', ambas incluídas na coletânea-homenagem em regravações de Simone e Altemar Dutra.
A partir daí, seus discos foram ficando cada vez mais leves, à medida que a abertura política se consolidava no país. Algumas composições do período nem de longe lembram o repertório da década anterior, quando a censura colou em seu pé obrigando-o a exercitar metáforas e até a produzir canções extras para substituir aquelas eventualmente mutiladas ou vetadas.
Vale lembrar que Gonzaguinha superou os contemporâneos ao ter 15 músicas proibidas num único LP. A otimista ''O Que É o Que É'' (''Viver e não ter vergonha de ser feliz...''), seu maior sucesso como intérprete, é emblemática dos anos pós-ditadura. No disco que chega às lojas, é cantada por Zizi Possi.
Já seu último sucesso, ''É'', de 1988, ganha versão de Cláudia. Nesta música, manifesta-se ainda a veia engajada do compositor em versos como ''A gente quer é ser um cidadão / a gente quer viver uma nação''. Sem oferecer novidades aos fãs, o tributo tenta pelo menos revalorizar o legado do artista, morto em 1991, em acidente automobilístico perto de Curitiba.


