''Cartada Final'', entrando hoje no circuito nacional (veja a programação de cinema na página 2), é um astucioso ''thriller'' sobre ladrões engenhosos, envolvidos naquela espécie de roubo em que o grau de dificuldade pressupõe habilidade, perícia, inteligência e talento acima dos padrões médios. E o que faz o produto muito melhor é que não há pancadaria, prédios explodindo, carros em louca escapada ou direção ofensiva e nem olhares ameaçadores nauseantes marcas registradas das mais recentes incursões ao gênero. Como consequência, o público vacinado e em estado de prevenção pode abrir mão das defesas e aderir sem medo a ''The Score'', um filme esperto, insinuante, dirigido com especial malícia por Frank Oz.
Nick Wells (Robert De Niro) é único em sua profissão. Maduro, fleumático, meticuloso, cercado de cuidados, é um perito assaltante de cofres que construiu sólida carreira com trabalhos refinados. Não há caixa-forte que resista a seu ofício solitário. Jamais corre riscos desnecessários, por isso nunca foi preso. Dispõe de amplo arsenal tecnológico e sempre exclui de seu raio de ação a cidade onde mora, Montreal, e onde é conhecido como dono de sofisticado clube de jazz, o ''NYC'' (New York City), onde oferece à platéias exigentes o que há de melhor em gastronomia e atrações artísticas entre elas Cassandra Wilson e Mose Allison, infelizmente em curtas audições. Mas agora ele está decidido a abandonar a delinquência para uma tranquila aposentadoria ao lado da paciente noiva de muitos anos, Diane (Angela Basset), dedicando-se apenas a seu negócio legítimo. Os dez minutos de abertura de ''Cartada Final'' mostram exatamente aquele que deve ser o golpe final numa mansão nos Estados Unidos. De resto, bem sucedido como todos.
Mas seu sócio e receptador Max (quem mais, se não Brando?) faz uma oferta irrecusável, que deverá agregar U$ 6 milhões à já folgada conta bancária de Nick. A façanha: entrar no prédio da alfândega de Montreal, e com base em informações fornecidas por um terceiro elemento, o jovem e agressivo ladrão Jack Teller (Edward Norton), botar a mão no tesouro. O que se verá a seguir está segmentado em duas partes, de acordo com a receita clássica: a minuciosa preparação do golpe, que admite alguma desavença entre as duas gerações e estilos de agir. Em seguida, a longa sequência do roubo e seus efeitos colaterais, incluída a surpresa. O diretor Frank Oz, competente quando faz comédia (''Será que Ele É ?'' e ''Os Picaretas''), neste caso apela para o humor com menos frequência do que se poderia esperar, e também se detém em precisões psicológicas, mas sabe valorizar a primeira parte, digamos, teórica. E na segunda metade atinge o desejado: sustentar sem quedas o tenso clima de suspense construído ao redor de personagens em constante terreno movediço.
De ''Rififi'' (54, Jules Dassin) a ''Crow, o Magnífico'' (68, Norman Jewison), passando por ''Topkaki'' (64, de novo Dassin) e ''Os Sete Homens de Ouro''(65, Marco Vicario), sobram no cinema muitos modelos que podem ter inspirado o trio de roteiristas. Mas há aqui uma variação: estes ladrões não são torturados ou torpes, e nem procedem do baixo mundo. À luz do dia vivem vidas muito normais, sob respeitáveis identidades. Nick, já se sabe, é proprietário de night club; o outro, Jack, feito sob medida para o histrionismo de Edward Norton, pertence ao serviço de manutenção da alfândega, onde trabalha como o zelador Brian, superprotegido pelos colegas porque simula uma deficiência mental.
A influência recíproca entre Norton e De Niro provoca na tela uma explosão de energia, um jogo brincalhão (sem exageros) executado com segurança e finesse, tornando plausíveis as motivações dos personagens. E sempre existe e vai existir Brando, mais largo, amplo, vasto que todos os elencos contemporâneos, literal e figurativamente. Sétima maravilha da interpretação, um espetáculo único para se admirar, mesmo que por pouco tempo neste ''Cartada Final''.
Há ainda no filme outros toques charmosos, para degustar. O desenho de produção é impecável, com destaque obrigatório para o clube de jazz de Nick, um lugar onde se gostaria de estar com abusada frequência. Excelente a trilha musical, a original de Howard Shore, tênue, refinada, levemente melancólica, e a ''emprestada'' de Cassandra Wilson e Mose Allison, com bônus de Miles Davis e da queridinha do momento, Diana Krall. Por tudo isso e mais coisas a usufruir, esta raridade que é ''The Score'' toma todo o tempo de que precisa, mas não há um minuto ou um plano desperdiçados.

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